domingo, fevereiro 18, 2018

O QUE É QUE UMA MULHER MAIS VELHA PODE OFERECER?


Recentemente, uma amiga, jovem esposa de pastor, que tem o dom de ensinar com sabedoria e graça as mulheres de sua igreja (e outras), pediu-me um texto para compartilhar com um grupo de mulheres acima dos sessenta anos de idade, sobre como elas podem viver e agir biblicamente. Não por coincidência, eu mesma tenho uma bibliografia de mais de 50 livros inspiradores lidos sobre o ministério da mulher, escrevi uma dissertação para o mestrado sobre o assunto e, há anos, preocupo-me com as mulheres em minha volta e com como elas podem servir melhor a Cristo. Não tinha, entretanto, nenhum texto sucinto e com conteúdo suficiente que pudesse compartilhar a fim de ela ler para seu grupo. Tem tanta coisa em que pensar para vivermos de modo coerente, tantas questões – e não temos todas as respostas nem as teremos deste lado da eternidade! O que dizer que edifique, estimule e frutifique na vida de outras pessoas como eu, que estão na chamada “melhor idade” e às vezes se sentem sem voz e de mãos atadas – mas que desejam ser fiéis ao Senhor Jesus? Fiquei pensando nas palavras dirigidas especificamente a mulheres como nós:
Quanto às mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias em seu proceder, não caluniadoras, não escravizadas a muito vinho; sejam mestras do bem, a fim de instruírem as jovens recém-casadas a amarem ao marido e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido, para que a Palavra de Deus não seja difamada (Tt 2.3-5).
Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras (Tt 2.11-15).
O Salmista, dando graças ao Senhor, fala que o justo florescerá como a palmeira e que “na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça” (Sl 92.14-15). Na Bíblia, Deus usa pessoas de todas as idades, de todas as origens sociais e econômicas, gente culta e importante, rudes pastores de ovelhas e pescadores de peixes e de almas. Chamou meninos (Samuel), jovens (José que aos dezessete anos foi vendido e foi parar no Egito, Marcos ), filhos de sacerdotes (Jeremias) e filhas de gente desprezível (Rute). 

Sara saiu da terra e da sua parentela com Abraão para a terra que Deus iria mostrar. Companheira fiel desde a mocidade, no entanto, duas vezes participou da trama de Abraão para dizer uma meia verdade a fim de enganar o rei, dizendo ser ela sua irmã (Faraó – Gn 12.10-20; Abimeleque – Gn 20.1-18). Achando que poderia, ela mesma, “dar um jeito nas coisas”, dado que era estéril e que Deus havia prometido um filho, Sara ofereceu a escrava Agar a seu marido para que esse a engravidasse. Depois que nasceu Ismael, Sara maltratou a sua serva e a expulsou (Gn 16; 21), e, quando ela mesma engravidou, com quase noventa anos de idade, riu da promessa do Senhor... para, só depois, rir por causa da alegria pelo nascimento de Isaque (Gm 21.5-7).

Quando criança, Miriã protegeu a seu irmão, Moisés, e intercedeu junto à filha do Faraó para salvá-lo (Ex 2.4-10). Ela contava mais de oitenta e seis anos quando liderou as mulheres no cântico de vitória depois que Moisés levou mais de seiscentos mil homens, sem contar as mulheres e crianças (que certamente eram pelo menos mais esse tanto!) na saída do Egito e a passagem pelo Mar Vermelho (Ex 15.20-21). No entanto, Miriã liderou o falatório contra Moisés depois de o povo de Deus ter experimentado a provisão de divina do maná e das codornizes – em função do racismo contra o casamento dele com uma cuxita – e foi punida com lepra (Nm 11.35).  

Raabe era prostituta cananéia, mas foi salva na destruição de Jericó (Js 6.17;22-25) porque creu em Deus e protegeu os espias (Js 2 – Hb 11.31 e Tg 2.25). Veio a fazer parte do povo de Deus e foi antepassada de Jesus Cristo (Mt 1.5).

Não sabemos se Débora tinha filhos – só sabemos que ela era profetisa e mulher de Lapidote, e apoiou a Baraque para que vencesse a batalha contra os midianitas – sobre isso ela fez uma canção que termina com uma declaração que tem inspirado mulheres e homens pelos séculos (4.4-15; 5.1-31): “Porém os que te amam brilham como o sol quando se levanta no seu esplendor”.

Na Bíblia toda, histórias de mulheres ativas e atuantes vêm à mente: as jovens Ruth e Esther, as maduras Abigail e Hulda, do Antigo Testamento. No Novo Testamento, Maria, mãe de Jesus, as idosas Isabel e Ana (Lc 2.36-38), a sogra de Pedro (que imediatamente depois de ser curada por Jesus, levantou e passou a servir seus discípulos), a viúva em Naim (cujo filho e único arrimo morreu e foi restituído à vida), a pecadora que ungiu os pés de Jesus, Maria Madalena, Joana mulher do procurador de Herodes, Suzana “e muitas outras as quais lhe prestavam assistência com seus bens” (Lc 8.2-3). Temos histórias verdadeiras que exemplificam a vida de cada mulher, quer elas tenham conhecido a Jesus Cristo naquele tempo em que ele andava sobre a terra quer depois nos mais de dois mil anos em que seu povo tem vivido e sobrevivido na luta pela fé. Hoje em dia, quando nós mulheres somos assediadas por todo lado por práticas impiedosas, filosofias escravizadoras, e ventos contrários a toda piedade, o que podemos ser e fazer como mulheres cristãs vividas, que muitas vezes sentimo-nos derrotadas pelas dificuldades da vida, dos relacionamentos quebrados e daqueles firmados que ainda nos afligem depois de 20, 30, 40 anos que pensávamos teriam sido resolvidos?

Primeiro, ser. Deus, o grande Eu Sou, nos ensina que a razão de nossa existência é sermos dele, viver no seu temor. Muitas mulheres se preocupam com o que fazer para conhecer a Deus – mas Ele diz que não podemos fazer nada enquanto não formos salvos por sua graça renovadora. “Pela graça sois salvos, mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus, não por obras, para que ninguém se glorie”(Ef 2.8). Ser de Deus significa, ainda, ser parte de sua família, ser adotada por ele e, por Cristo, tornada herdeira de toda sorte de bênção celeste e terrena – isto é o que sou como crente em Cristo.

Segundo, onde e o que fazer. Aos Coríntios, Paulo escreveu que “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo!” (1Co 5.17). Você pode ser taxada de velha, sentir-se velha, ver-se no espelho como tendo já acabado os seus dias mais viçosos e belos – mas está vivendo em novidade de vida (Rm 6.7; Rm 7.6). Ainda na velhice dará frutos – como Sara, Dorcas, Priscila, Loide, e Eunice.

Quando Paulo escreveu a Timóteo, lembrando das suas lágrimas, ele recorda “tua fé sem fingimento, a mesma que primeiramente habitou em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti” (2Tm 1.4-5). Na sua primeira epístola ao jovem pastor Timóteo, ele já ressaltara o desejo que todos vivessem “sem ira e sem animosidade” (1Tm 2.8) para falar especificamente então às mulheres: 
em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é próprio de mulheres que professam ser piedosas). A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio ... será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso (1Tm 2.9-15).
Quando falou especificamente aos diáconos, ele disse: “Da mesma sorte, quanto a mulheres, é necessário que sejam elas respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo (3.11). Os pastores, quando exortassem, deviam tratar 
as mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza. Honra as viúvas verdadeiramente viúvas... aquela que não tem amparo espera em Deus e persevera em súplicas e orações noite e dia,,, tenha sido esposa de um só marido, seja recomendada pelo testemunho de boas obras filhos, exercitado hospitalidade, lavado os pés aos santos, socorrido a atribulados, se viveu na prática zelosa de toda boa obra (1Tm 5.2-10).
Hoje, existe muita gente que quer descartar as palavras paulinas sobre as mulheres porque acham que, antiquadas, desprezam o valor da mulher – mas quando vemos todo o ministério do apóstolo, observamos o valor que ele dava a mulheres como Priscila, Lídia, Febe, Drusila, Trifena Trifosa, Perside, Julia, Olimpas e uma imensa lista de nomes de mulheres intercaladas com os homens que fizeram parte de sua vida. Entendemos, então, que a ordem de “aprender em silêncio” faz parte do bom senso de não sermos precipitadas no falar, de ouvir antes de comentar – sem jamais usurpar o lugar de outro, homem ou mesmo mulher. 

Não dá, neste pequeno escrito, para comentar com profundidade as perguntas que pipocam – quero somente enfatizar que as mulheres cristãs, de crianças e jovens até maduras e beirando a velhice – têm o privilégio e a responsabilidade de viver a fé que Deus nos deu em Jesus, com amor, dignidade e boas obras. Nossa cabeça tem de estar cheia das palavras de Cristo; nossa boca jamais frívola ou maldizente, mas sempre louvando a Deus e proferindo o bem para nosso semelhante; nossas mãos prontas para toda boa obra, nossos pés caminhando, correndo, quem sabe tropeçando – rumo à Cidade Celestial. 

Amo ver meninas que crescem em sabedoria e no conhecimento de Deus, moças, senhoras esposas e mães jovens – pessoas maduras de toda idade, crescendo na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2Pe 3.18). Qualquer uma e todas nós podemos fazer isso, porque Ele é quem nos salvou, santifica, fortifica e em fim, nos glorificará. Sou grata por ser uma mulher comum que recebeu Jesus como Salvador quando eu tinha apenas quatro anos de idade, tenho vivido com ele desde a mocidade até meus dias de grisalha idade, e continuarei a louvá-lo por toda a eternidade. Este é um desafio a todas nós.

Elizabeth Gomes 

sábado, janeiro 13, 2018

SEGUNDA CHANCE



Algum tempo atrás, um membro da igreja comunicou que não participaria mais de nossa comunidade porque tínhamos oficiais da igreja que haviam divorciado e estavam em seu segundo casamento. Sentimos a perda desse irmão valioso, mas não poderíamos rejeitar as pessoas que estavam vivendo a vida cristã no lar com fidelidade em uma segunda oportunidade, e faziam parte da família da fé. Alguém, querendo dar “justificativa para o casal de ex-divorciados, afirmou: “Mas ele foi a parte inocente, portanto a Bíblia permite um novo casamento”.

Não sei se era ele parte inocente ou culpada de um casamento falido trinta anos atrás. Na verdade, todos nós somos pecadores culpados diante de Deus, e nos delicados relacionamentos entre homens e mulheres, não estamos isentos – nenhum de nós – de pecado contra a integridade do casamento que foi feito diante de Deus, com enormes consequências que ferem o indivíduo, o casal, a família, e todo o corpo de Cristo. 

Quanto a pecados passados que foram perdoados na cruz de Cristo, há dois aspectos a se ter em mente: 
1) Os injustos não herdarão o reino de Deus (onde habita a justiça de Cristo); contudo, depois de uma longa e feia lista de pecados que impedem a herança no reino Paulo diz reafirma que a redenção é completa: “Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo w no Espírito do nosso Deus”(I Co 6.9-11).
2) Deus apaga nossas transgressões! Quando o profeta lembra a salvação do Senhor Deus para Israel, ele os exorta a se lembrarem da história passada, desde a mais remota (antes que houvesse dia, Is 43.14) passando pela história mais próxima (Babilônia, caldeus Is 43.14-17) para dizer que “não lembreis das coisas passadas, nem considerais as antigas” – Is 43.18) porque “Eis que faço coisa nova... ao povo que formei para mim, para celebrar o meu louvor” (Is 43.21). Isso, apesar dos “contudos”... (v 22-24) pelos quais “me deste trabalho com os teus pecados e me cansaste com as tuas iniquidades”. Por que? Porque “Eu, eu mesmo sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim e dos teus pecados não me lembro”! (Is 43.25).

Um estudioso da Bíblia pode argumentar que o texto de Isaías fale da situação de Israel diagnosticada pelo profeta lá pelos anos de 686-650 AC. Afirmamos a interpretação histórica literal – mas cremos que, além dela, toda a Bíblia é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16)—portanto, se aplica a nossa vida de cada dia, aos dias de hoje, às situações complicadas que deparamos no passado e no momento atual. O Deus dos antigos é o mesmo que nos transformou no passado, que está nos transformando no presente, e nos transformará futuramente para a eternidade. “Se alguém está em Cristo, é nova criatura...” (2 Co 5.17).

Uma irmã em Cristo casou e, depois, descobriu que seu marido era homossexual. O casamento foi desfeito; ela tem direito de casar-se com outro, no Senhor. Um irmão em Cristo descobriu que sua mulher o traia repetidas vezes. Na loucura da descoberta da traição, ele também cometeu adultério. Arrependeu-se amarga e sinceramente. O divórcio ocorreu, mas, pela misericórdia do Senhor, ele voltou a servir a Deus. Encontrou uma mulher que também amava a Jesus, casaram-se e estão vivendo em novidade de vida. Uma serva de Cristo suportou muito tempo os abusos físicos e a falsidade do marido, mas abriu os olhos para o perigo que corria, e seu casamento foi desfeito para proteger a integridade física dela e dos filhos menores. São muitos os casos em que, pela dureza dos corações, não existe outra solução prática senão o divórcio. Falando sobre casamento de alguém que se converteu e o cônjuge rejeita a vida nova, o apóstolo Paulo diz: “Mas se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos, não fica sujeito à servidão nem o irmão nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz” (1Co 7.15).

O assunto é longo e complicado, e eu não tenho meios para determinar o que outras pessoas devam fazer em circunstâncias em que eu não me encontrei, senão o conhecimento da Palavra, pelo Espírito. Pastores conselheiros e advogados cristãos têm autoridade para aconselhar sobre aspecto eclesiásticos e legais. O que quero lembrar, neste curto e limitado blog, é que Deus nos oferece “segundas chances” – oportunidades de mudar o rumo da vida, mesmo depois que a destroçamos e temos dificuldade de juntar os cacos para refazê-la.

Deus deu uma segunda chance a seu discípulo outrora falastrão, que negou o Mestre a quem dissera “ainda que todos se escandalizem, eu jamais...” (Mc 14.29) e “ainda que eu morra, de nenhum modo e negarei” (Mt 26.35) três vezes na hora do maior sofrimento possível. Depois da ressurreição de Jesus, esse grande pescador recebeu outra incumbência: “apascenta meus cordeirinhos... pastoreia as minhas ovelhas... apascenta meu rebanho” (João 21.15-20). Após a ascensão de Jesus, Pedro passou a ser, com a escolha de Matias, um líder-servo que transformou a sociedade em que vivia, desde o poderoso discurso do dia de Pentecostes (At 2.14-36) até suas cartas cheias de amor e sua morte como mártir. Por exemplo, no segundo discurso, no pórtico de Salomão (At 3.11-26) Pedro continuou pregando arrependimento e mudança de vida, e quando ordenado calar a boca, o agora destemido servo disse: “Não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos”(At 4.20). O apóstolo Pedro é um grande exemplo de homem que, tendo uma segunda chance, usou-a para a glória de Deus. 

Voltando ao tema da “segunda chance” na questão de casamento, divórcio e novo casamento, Deus dá a seus filhos que vivem a “fé arrependida” oportunidades para demonstrar a sua graça em maneiras que nem olhos viram. Para isso, a sabedoria bíblica indica que a pessoa tem de ser “obreiro aprovado, que maneja bem palavra da verdade” (2Tm 2.15) e que, para essa aprovação, deve haver “prova de que em tudo sois obedientes” (2 Co 2.9) “para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não ignoramos seus desígnios” (2 Co 2.11).[Estes dois últimos textos se referem à atitude da igreja para com um irmão que havia cometido pecado muito sério, foi disciplinado, se arrependeu, e foi restaurado à comunhão]. 

Um casal que tenha recebido uma “segunda chance” não poderá, de imediato, ser responsável pela liderança de ministérios de casais, assim como o pastor que esteve caído nessa área e hoje é restaurado não deverá ser imediatamente conselheiro de casais. Isso seria como colocar um ex-pedófilo para liderar o ministério com crianças, ou um homem que espancava a esposa para cuidar de uma casa para mulheres que sofreram abuso! O princípio de ser provado e aprovado implica também o de “não impor precipitadamente as mãos”. Deve haver sabedoria e bom senso para permitir que os que já tiveram problemas em determinada não dêem oportunidade ao diabo! Contudo, a redenção é completa e a restauração plena será sempre possível – é o caso de Paulo, o perseguidor, chamado para ser apóstolo.

Depois que adulterou e causou a morte do marido de Bateseba, Davi teve profundo arrependimento e confessou seu pecado (Sl 51.1-19). Pediu ao Senhor que restaurasse a alegria da sua salvação e o sustentasse com espírito voluntário. Disse: “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos...”— suas experiências negativas passaram a ser usadas para ajudar outros ao arrependimento – mas não possibilitaram que construísse, ele mesmo, o templo! 

Sou grata a Deus que me deu segundas (terceiras e muitas mais!) chances na vida, ainda que a questão de divórcio nunca tenha entrado em nossa própria experiência. Sou grata a Deus por irmãs e irmãos que experimentaram muitos dissabores e dores insuportáveis na vida, e depois de consertar as situações, restauraram a vida e passaram a servir a Deus com integridade. Deus é Mestre Supremo em tomar vidas esfaceladas, dilaceradas, e torná-las inteiras. Com humildade, acate as segundas oportunidades que Deus oferece – vivendo em novidade de vida, usando as experiências negativas para tomar cuidado para, estando em pé, não cair!

Elizabeth Gomes

sábado, dezembro 02, 2017

À LEI, AO DIREITO, À JUSTIÇA, À GRAÇA!




Antes, o menino era pego com o dedo no nariz e, pronto, tirava os olhos da menina e punha-o debaixo da cadeira juntamente com outras vergonhas. Hoje, é possível que ele mostre a caca. Antes, caráter e clareza eram esteios da vida de um casal; se uma falta de caráter levava o marido a mentir sobre o motivo do atraso, por respeito aos sentimentos da esposa, ela sofria, mas relevava. Hoje, ela já não liga para a mentira nem para onde ele esteve nem para o atraso. O que é que está havendo com a gente?
                Qualquer um que tenha um pouco de clareza mental desconfia, até mesmo, dos motivos por trás da maioria das propagandas da TV e da net. Claro que deve haver algum grau de honestidade no meio do ruído do comércio, mas a regra é desconfiar primeiro. Você acredita na ocular miraculosa que bate todas as lentes mais acreditadas? Nas notícias que não adiantam a que vêm e querem que você clique e pague pra ver? No conhecimento e sabedoria de cabos eleitorais bolsonaros ou lulistas ou de revolucionários ameaçando intervenções destras e canhotas?
                A coisa ainda fica mais pesada quando precisamos falar que nem todo político é safado a fim de dizer que a política governamental está safada. O certo é que, “se gritar: pega ladrão! não fica um, meu irmão” – nem mesmo quem cantou o verso. Quem não está com a espada no pescoço por ter sido pego com dinheiro na mala ou na cueca, também não aprova projetos que promovam lavagem a jato das coisas morais e éticas. Na área da justiça e do direito, o bicho pega feio. O que é que um ministro da injustiça tem que consegue fazer e acontecer?
                E nós, onde ficamos? De acordo com a Palavra de Deus: A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós, o corar de vergonha ... a nós pertence o corar de vergonha, aos nossos reis, aos nossos príncipes e aos nossos pais, porque temos pecado contra ti (Dn 9.7-8). É isso aí, envergonhados da nossa falha de caráter e de clareza espiritual, que nos levam a esperar em redenções morais políticas, que não procedem de toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3). É por causa de nossas ações erradas ou de nossas omissões suspeitas que o mundo não reconhece o direito e a justiça do evangelho que a igreja deveria pregar e viver. Deveríamos ser exemplos de caráter santo e de desempenho social amoroso. Ou, no mínimo, deveríamos estar sob perseguição.
Tenho pedido a Deus que levante pessoas estudiosas do direito para ensinar e motivar as nossas igrejas a cumprirem a parte da missão de Deus que trata da cidadania (cf. O Sermão do Monte, Mt caps. 5 a 7). Poucos são os advogados, nas igrejas brasileiras, que conhecem os fundamentos bíblicos da lei e da justiça aplicados ao direito exercido em nossa terra. Isso se dá, em parte, por causa da quase ausência de boa literatura a esse respeito. Há algumas publicações recentes, mas muito do que existe, são tentativas de práticas jurídicas ou justificativas de opiniões de um e outro dos grandes sistemas do direito “secular”, utilizando textos bíblicos isolados.
A Bíblia, sem sombra de dúvida, é um livro de lei, de justiça, de direito privado e público, e daí em diante — tratando todos esses sub-itens a partir de um ponto de vista teológico. Será bom lembrar que muitos dos reformadores eram acadêmicos de direito, entre eles Lutero e Calvino. De passagem, menciono os muitos escritos de Kuyper e de Dooyeveerd, os quais serão indispensáveis ao pesquisador. Além desses, entre outros de igual importância, há livros que mostram aspectos práticos do direito bíblico: Law and the Bible, Eds. Robert Cochram Jr and David VanDrunen (www.IVPress.com/books), The Ten Commandments, Thomas Watson (1692, diversas editoras); The Ten Commandments: Manual for the Christian Life, de J. Douma (P&R Publishing); A lei da perfeita liberdade, Michael Horton (Editora Cultura Cristã, 2000), e daí em diante.
O que segue é uma tentativa de provocar um gosto pelo estudo do assunto e pela educação das nossas igrejas no exercício de nossa dupla cidadania celestial e terreal.
Aprecio muito os livros seminais. Não livros simplistas, mas sementes férteis que plantadas em solo arroteado e bom, crescem a cem, a mil por dez. Como disse David Powlison, não se trata da simplicidade aquém, mas além da complexidade. O The Law, de Frédéric Bastiat, é um desse livros (Auburn, AL, USA: Ludwig von Mises Institute, 1850; 145 pp). Já nas últimas cinquenta páginas, Bastiat repete perguntas e respostas que procurou levantar na mente do leitor: “O que é a lei? O que ela deveria ser? Onde, de fato, termina a prerrogativa do legislador?” A sua resposta é pronta: “A lei é a força comum organizada para prevenir a injustiça – em suma, Lei é Justiça” (p. 115).
Se o leitor for criativo, lembrar-se-á de que a lei escrita na Palavra de Deus foi dada para servir de consciência ao homem decaído de seu estado original. A questão é que, antes do pecado, nossos primeiros pais acatavam a lei preveniente e evidente na criação. Depois da Queda, sem o temor de Deus no coração e diante dos olhos, veio a lei de Deus a fim de calar qualquer justificativa humana e colocar a todos sob condenação – as obras da lei a ninguém justificam, antes, fornecem a consciência do pecado. 
A obra redentiva da lei apontou e sempre aponta para o Redentor, o Filho de Deus que no devido tempo se encarnou para cumprir a lei fazendo-se justiça em nosso lugar. Toda a humanidade está sob o juízo da lei de Deus, quer pessoas regeneradas quer naturais, mostrando “a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” (Rm 2,15; cf. 2.11-14; 3.18-22; 1Co 1.30).
A missão da lei dos homens, como diz Bastiat, não é a de “regular nossas consciências, nossa vontade, nossa educação, nossos sentimentos, nossos trabalhos, nossos intercâmbios, nossos dons, e nossas diversões” (p. 116). Essa é a função da lei de Deus, na Palavra escrita e no testemunho interno do Espírito, assegurando ao regenerado a justiça de Cristo e suas bênçãos, e ao não regenerado, a consciência e a final consequência do pecado. Em relação à humanidade em geral, a missão da lei humana é a de “prevenir que os direitos de uma pessoa, acima descritos, sofram interferência por parte de outras”.
A lei garante tais direitos por meio do exercício de sua força, isto é a justiça. “Como cada indivíduo tem o direito ao recurso dessa força somente em caso de defesa pessoal, assim também a força coletiva, a qual é a união de forças individuais, não pode ser racionalmente usada para qualquer outro fim” (p. 116). A lei somente será justa se for a organização dos direitos individuais que existirem diante da lei. Pois a lei é justiça. Daí, Bastiat depreende o que deveria estar em nosso coração e evidente aos nossos olhos: se a lei for usada para oprimir o povo seja por meio do controle da consciência do indivíduo (em termos de sua linguagem, educação, associações e identidade social, de gênero etc.) seja por meio do despojo de sua propriedade, mesmo com alegada motivação filantrópica – nesses casos a justiça deverá ser reclamada por parte de uma união de forças individuais.
O ideal de justiça, diz Bastiat, não “pode ser mais claro e mais simples, mais perfeitamente definido e unido, ou mais visível a cada olho; pois justiça é uma dada quantidade, imutável e constante, que não admite aumento ou diminuição.” Ideal, eu digo, porque a justiça não existirá em um mundo decaído, sendo atingida única e exclusivamente em Cristo por meio da ação do seu Espírito. “A partir daí, faça a lei humana ser algo religioso, fraternal, equalizador, industrial, literário, ou artístico, e você estará sobre terreno desconhecido, uma utopia forçada, ou, pior, uma multidão de utopias em contendas para obter a posse da lei a fim de impor [sua versão de justiça] sobre” o indivíduo.
Como é que poderemos impor limites à consciência? Mudar identidade de gênero? Fornecer educação igualitária a pessoas com diferentes dons e motivos? Administrar o labor criativo e recompensador? Como operar justiça a uns sem fazer injustiça a outros? Pessoalmente, sei que a perfeição não existirá aqui e agora. O mundo jaz no maligno e seus caminhos são tenebrosos e mortais. Há, entretanto, uma esperança baseada na promessa divina. Deus concedeu os Dez Mandamentos a um povo que, ainda que carente da habitação do Espírito, tinha a promessa dessa graça para a própria política como povo organizado e para o cumprimento de sua missão política externa.
Ninguém jamais cumpriu a Lei senão o Filho do Homem, Jesus. Ele é a nossa justiça. Assim, o indivíduo regenerado, enxertado na Videira, recebe dele a vocação e os dons para a própria vida e para a missão de Deus no mundo. Em uma aplicação bem prática, o apóstolo Paulo discorre sobre como, individualmente, ele lidou com os seus valores e motivos internos, e com suas posses externas, à luz do conhecimento e da comunhão com Cristo:
Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo.
Estas palavras, Paulo escreveu a uma igreja, falando sobre a vida dos membros na unidade da fé e sobre a missão da igreja no mundo. Ele continua:
E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé; para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte; para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos.
Sua motivação não era mais uma de reivindicação de direitos, mas de cessão dos próprios direitos em função das virtudes de Cristo a serem vividas e proclamadas. É assim que Paulo, considerando as fraquezas humanas e os poderes de Cristo, convoca-nos e anima-nos a viver do mesmo modo:
Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará. Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo (Fp 3.7-16).

Wadislau Martins Gomes

sexta-feira, novembro 17, 2017

CONSIDERAÇÕES SOBRE PEDRAS ESCANDALOSAS



Celebramos os quinhentos anos desde que Lutero postou suas Noventa e Cinco Teses à porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha, protestando contra os erros e abusos da igreja medieval. O ato produziu a maior transformação religiosa e filosófica da cristandade desde quando a igreja começou nos dias de Jesus e de seus Apóstolos. Estamos alegres e corretos ao celebrar e pertencer a um povo que retornou ao conhecimento e a prática das Escrituras. Temos justo orgulho de nossa história protestante.
Mês passado, meu filho esteve em Wittenberg, junto com pensadores reformados do mundo inteiro, para celebrar e firmar sua cosmovisão reformada. Contou-me, porém, algo de que eu tinha ouvido falar remotamente, e que muito me perturbou. Em meio aos festejos da cidade e do mundo, um homem solitário portava uma placa perguntando por que Lutero não se arrependeu nem levou o povo da igreja ao arrependimento pelo antissemitismo que difundiram, simbolizado pela escultura em pedra de um baixo relevo obsceno e infame da “Judensau”, a figura de uma porca em que os judeus eram os leitões que nela mamavam.
Como cristã que ama a Bíblia e, por conseguinte, ama o povo de quem veio Jesus e as Escrituras, fiquei chocada. Sabia que o antissemitismo existe desde quando Deus chamou Abraão para sair de sua terra e formar o seu povo, quando prometeu que abençoaria todos que o abençoassem. Ao longo da história sempre houve faraós, amalequitas e amorreus, hamãs e sambalás, assírios e babilônicos e persas, antíocos e herodes e neros e inquisições nas católicas Espanha e Portugal, pograms na Russia e Polônia, a destruição por islâmicos e o horrendo nazismo que antecedeu, fez parte e ainda tem seguidores por todo o mundo “civilizado”.
Quem lê a historia do mundo não pode ignorar a insidiosa existência do antissemitismo. Permanecem em nossa língua expressões preconceituosas como “judiar” como sinônimo de maltratar, (só que as vítimas da judiação eram os judeus, e não aqueles que judiavam deles) ainda que a colonização do Brasil tivesse sido realizada por muitos “novos cristãos” (judeus forçados a se “converter” para não morrer na fogueira). A primeira sinagoga na América foi em Recife, permitida durante a permanência protestante holandesa no Brasil. Quando os holandeses foram expulsos do Brasil, Mauricio de Nassau foi para a América do Norte e fundou Nova York (onde hoje em dia existem mais judeus do que no Estado de Israel). Temos indícios de que o Imperador Dom Pedro II amava o povo judeu, conhecesse profundamente a língua hebraica, e garantisse liberdade de culto a imigrantes judeus. O Brasil, que em 1948 aprovou a fundação do moderno Estado de Israel, até a pouco tempo apoiou e financiou o terrorismo palestino e do Estado Islâmico. Não obstante, voltemos a Lutero.
 Lutero transformou o culto, o estudo da Palavra de Deus, o casamento e a família, a educação, a música na igreja e fora dela, a política na Alemanha – e isso se estendeu por toda a Europa. A luz raiou sobre o mundo conhecido, com a aurora da Reforma. Lutero era conhecedor do Antigo e Novo Testamento (e deu a primeira Bíblia em língua alemã, aprimorando a própria língua alemã moderna), o hebraico como também o grego. Ele argumentava que se os judeus fossem tratados com bondade e ensinados corretamente as Sagradas Escrituras — Antigo e Novo Testamentos — então “muitos deles se tornariam verdadeiros cristãos e retornariam à fé de seus pais, os profetas e os patriarcas.” Quando os judeus se convertem ao cristianismo, Lutero disse, “eles se tornam nossos irmãos e irmãs em Cristo. Porém, poucos judeus se tornam cristãos.” Essa atitude anterior de Lutero, de maior aceitação dos judeus, virou irada rejeição, não por judeus serem judeus, mas por não serem cristãos. Em 1543, Lutero publicou Os judeus e as suas mentiras, no qual instava com os líderes alemães a “afugentar todos os judeus de suas terras.” Este era “um juízo imperdoavelmente severo” para alguém que tivesse demonstrado tanto amor pelo povo de Israel em seu trabalho como estudioso do Antigo Testamento” (David B. Calhoun, “Fiel até o final,” em Sproul e Nichols, editores, O legado de Lutero, S. José dos Campos: Editora Fiel, 2017. Pior, apesar de pastorear por dezessete anos a igreja de Wittenberg e conseguir nela inúmeras conversões e transformações, Lutero nunca tentou tirar a “Judensau” de seus símbolos. Pelo contrário, muitas eram as indicações de que nunca procurou eliminar o antissemitismo da sua congregação ou seu povo – talvez por ele mesmo ser cego quanto a seriedade deste pecado contra Deus.
            Lutero é prova visível que grandes homens e mulheres de Deus, que fizeram grandes coisas para a humanidade, não estão isentos de cometer grandes pecados. Temos exemplos clássicos em Abraão, Gideão, Saul, Davi, Salomão, e em nossos irmãos em Cristo, Pedro, Paulo, e Tomé. O fato que fizeram grandes coisas não diminui a seriedade nem as consequências dos seus imensos pecados. O homem segundo o coração de Deus adulterou e mandou matar seu capitão; o homem mais sábio sobre a terra perdeu seu impacto por sua poligamia desenfreada e idólatra; o iniciador da transformação do mundo por meio da Reforma foi omisso, se não pessoalmente responsável pelo problema dos maus tratos do povo de Deus.
Essa triste história do “Judensau” lembra outros relatos perturbadores de pecados de grandes homens de Deus nos dias de hoje. Não me refiro a coisas banais como os charutos de C. S. Lewis e de Charles Spurgeon, ou a posição legalista implacável de Charles Ryrie com respeito ao divórcio até ele mesmo ferir seu casamento, divorciar-se e casar com outra. Usos e costumes não são motivos para divisões na igreja. Mas crassas falhas de caráter deviam ser vistas e tratadas com seriedade. Em nossos anos de aconselhamento bíblico, temos visto inúmeras pessoas adultas que foram permanentemente machucadas por abuso sexual ocorrido ainda na infância. Pior que muitas dessas pessoas que sofreram abuso foram feridas por “homens de Deus”— avós, pais, tios, irmãos, padrastos, professores. pastores – gente em quem confiavam, que representavam a igreja e a fé e a família Deus, fizeram não apenas efígies de “Judensauen”, mas eles mesmos arrancaram a ingenuidade ou inocência de gente criada à imagem de Deus.
Percebi recentemente em postagem no facebook que uma amiga está profundamente zangada com os atos e atitudes de um pastor do seu conhecimento. Porque esse homem “reformado” agiu satanicamente, ela se voltou para um cristianismo vazio, de sensações, e que ignora a ação das Escrituras na totalidade da vida. Muitas vezes, feridas como essa, que contaminam todos os aspectos da vida, começam com algum tipo de abuso – alguém que usou da “autoridade” para dessacrar e ferir o brio de uma pessoa vulnerável.  É como a existência de um baixo relevo de Judensau entre as pedras construindo a igreja. Jesus fez advertência muito séria quanto a essas coisas:
Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar (Mt 18.6).

Seja ela a existência de uma pedra com desenho obsceno de porca amamentando judeus na construção de uma grande igreja histórica, seja na pedra de moinho a que Jesus referiu (Mc 9.42) logo antes de falar dos escândalos:

Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!  Portanto, se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno.  Se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo (Mt 18.7-9).

Jesus falava aos escribas e fariseus:
Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos.Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó” (Mt 21.41-44).

Pouco depois disso, lamentou sobre Jerusalém lembrando que ali não ficaria pedra sobre pedra (Mt 24.2). Depois da ressurreição e ascensão de Jesus, Pedro, que havia traído covardemente o Mestre, se encheu de coragem e pregou sobre a pedra – que não era Pedro – era Cristo:

Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular.  E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos (Atos 4.11-12).  

Paulo também via a pedra fundamental da fé:
Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor,  no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Ef 2.20 – 3.1)

Pedro teve esta visão por todo seu ministério:
“também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado.  Para vós outros, portanto, os que credes, é a preciosidade; mas, para os descrentes, A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular   e: Pedra de tropeço e rocha de ofensa. São estes os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos (1 Pe 2.5-8).  

Não quero ser pedra de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem para a igreja de Deus (1Co 10.32)! Quero me firmar na Pedra Viva, na Rocha Eterna, e eu mesmo ser como pedra viva na edificação do corpo de Cristo – jamais pedra no sapato nem pedra de tropeço na história do povo de Deus. “Tirai os tropeços do caminho do meu povo,” diz nosso Deus (Isaías 57.14).
  
Que aprendamos com Jesus, e nos arrependamos de quaisquer pecados que causem nossos irmãos a tropeçar!


Elizabeth Gomes

quinta-feira, outubro 26, 2017

NAVEGANDO NA REALIDADE DOS SONHOS


Amo minha casa e sou caseira assumida de sala e quarto, forno e fogão, jardim e horta, varanda repleta de gente amiga e de cadeira de preguiça ao sol com bom livro na mão. Também gosto de sair e bater perna para perto e para longe – eu aproveitava cada convite que Wadislau tinha para pregar ou ensinar, e acompanhava-0 segundo o exemplo da mulher de Pedro. Agora, com a miastenia gravis que acomenet o9 meu marido (diagnosticada há mais de quatro anos), as apreciadas viagens ao Norte, Sul, Leste e Oeste do Brasil, a  cada três ou quatro anos para visitar filha e netos nos Estados Unidos, ou compartilhar em teologia prática o amor de Deus onde quer que for têm sido escassas quando não impossíveis. Nem me fale em enfrentar uma viagem à Terra do Sol Nascente, onde nosso filho caçula e a família querida estão estabelecidos para a glória do Deus a quem servem! A ideia de trinta e seis horas de voo antes mesmo de chegar ao destino atualmente não é viável.

Mais uma hospitalização de meu marido tornava esdrúxula idéia de viajar. Alguém sugeriu e tornou possível a opção de fazer um cruzeiro. Ontem mesmo vi uma postagem de um irmão criticando pastores que dirigem carros importados e fazem viagens caras como desperdício pecaminoso dos recursos que Deus dá, e imaginei que, se ele visse nosso roteiro sonhado, nos colocaria no topo da lista de grandes pecadores. Mas Deus nos deu este presente – portanto, voltemos ao cruzeiro. Seria uma forma de viajar sem estresse, com médico e hospital a bordo, descendo nos portos quando possível, descansando na cabine quando Deus diz “pára um pouco” para respirar. Conhecer um pouco da história da civilização ocidental, um cantinho do Mediterrâneo, relembrar do Deus a quem servimos a graça sem par que encherá toda a terra “como as águas cobrem o mar” – talvez seja a primeira e última grande viagem que faremos deste lado da eternidade.

 Talvez ainda dê para visitar Israel, Egito, Turquia, Armênia, Grécia e o lado oriental onde nasceu nossa fé, ou o extremo oriente onde estão nossos queridos no país menos evangelizado do mundo e dar um pulo num dos mais cristianizados (Coréia) e, como no sonho de Hudson Taylor, de população convertida mesmo sob domínio materialista, ou ainda em exóticas terras onde temos irmãos servindo a Cristo na Tailândia, no Camboja, na Indonésia e nas grandes ilhas do primeiro mundo da Austrália, Nova Zelândia e tantos outros. Eu “toparia” viajar pela Europa toda para apreciar as belezas em que antepassados há muitos séculos lutavam e conviviam. Mas não dá. 

Temos de restringir o sonho à realidade possível, e o Deus do impossível nos possibilitou um “giro” europeu de Lisboa a Barcelona, Marsela, Gênova, Málaga até o norte da África em Casablanca antes de retornar ao porto lusitano no Atlântico jungido ao Tejo. Cada lugar um ponto, uma ponta, de um país de “muito mais”! Experimentamos cozinhas autênticas com bacalhau, pato assado e pastéis de Belém, uma paella inesquecível em Barcelona e em Málaga tapas e um prato de jamon com ervas. Em Marsela, onde Lau não agüentou fazer turismo, fui caminhar sozinha e sentir aromas de Buillabesse, de lavanda e flores de Provence, ao andar de tram e à pé pelas vielas de lojas de moda internacional e de todo tipo de especiarias antigas do Saladin. Andei como nunca! Ah Gênova – la bela Italia onde tomamos capuccino numa pâtisserie diante da catedral de San Paolo , fomos a mirantes mirabolantes ver simultaneamente sonhos medievais e modernos, e eu trouxe do quintal da casa de Cristóvão Colombo uma azeitona madura cuja semente vou plantar para ver se germina aqui no Refúgio de Mogi das Cruzes. 

Havia no Magnifica quase três mil passageiros servidos por uns mil tripulantes. Ouviam-se línguas estranhas e familiares, e alternávamos automaticamente entre inglês, português, italiano e espanhol, alemão e mistureba internacional nos corredores, elevadores e escadas, nas entradas e saídas dos restaurantes e lojas, bares e butiques, teatro e hospital. Algumas famílias jovens com miúdos e bebés, falando árabe, inglês, italiano e finlandês, croata e francês, e uns dez a quinze por cento de profissionais liberais e comerciantes bem-sucedidos. Centenas de passageiros eram, como nós, de terceira idade, aproveitando os anos de reformados (no sentido lusitano de aposentados) porque navegar é preciso. Uma fila para desembarque me lembrava cena do filme Cocoon com gente velha gesticulando, claudicando, caminhando avidamente para locais onde encontrariam (ou não) fonte da juventude. O navio tinha múltiplas atrações que não nos atraíam – lojas de produtos de luxo, SPA com mil ofertas de embelezamento, piscinas e cassinos e jogos de todo tipo. Toda noite havia apresentações musicais de canto e instrumentos ao vivo, show no teatro, com teatro, canto, orquestra, danças e malabarismos dignos de cirque de soleil – podia divertir-se até morrer, se assim quisesse – e me deleitei quase diariamente com o talento de toda espécie de artistas antes desconhecidos.

Em sua maior parte, o mar estava tranqüilo, exceto uns dois dias quando o balanço nos fazia perguntar se estávamos tontos por bebedeira (sem termos ingerido nada alcoólico) ou prestes a sofrer um AVC. Lembrei-me do apóstolo Paulo, que naufragou no mar Adriático (uma extensão do Mediterrâneo a oeste da Grécia e leste da Itália, beirando a Albânia, Croácia e Macedônia) a caminho de Roma, antes de chegar a Siracusa, e foi parar na ilha de Malta, entre bárbaros e serpentes venenosas – onde foi regiamente hospedado pelo homem principal da ilha e trouxe-lhe as novas de Jesus Cristo. Mas animei-me ao ver pela sacada de nossos aposentos que o prateado mar se aquietou e nossa aventura não chegaria a tais extremos.

As refeições se davam principalmente em dois dos restaurantes do navio, um de bufês variados, outro de serviço francês à la carte, exceto quando entrávamos nas cidades onde tivemos refeições inesquecíveis em Barcelona, Málaga e a inigualável Lisboa – e no nosso quarto, serviço japonês quando Lau não agüentou deslocar-se para outro andar. Andar – balançando com as ondas, caminhando entre as multidões, ou sentar – ao lado de pessoas outrora desconhecidas que se tornaram velhas amigas em poucos minutos – faz-me lembrar do banquete de qual participarão pessoas de todas as tribos e nações depois que terminarmos a peregrinação sobre esse planeta azul. Passei a orar por pessoas que nunca antes tive o privilégio de conhecer, a sentir suas dores, seus sofrimentos em meio aos grandes sucessos da vida – e observando rostos, gestos, andares, pensei em como Cristo nos ama e cuida dos detalhes com magnífica maestria e arte eterna que se renova a cada momento.

Não foi uma viagem piegas nem creio que estávamos conscientes de maior presença ou poder de Deus nessa nossa viagem pela costa do Mediterrâneo. Mas lembrei-me da história de outra viagem há quase um século, de navio no Atlântico, “o barco que nem Deus consegue afundar” – o Titanic – cuja orquestra, enquanto afundava, tocava “mais perto quero estar, meu Deus de ti”. Somos testemunhas da bondade e da severidade de Deus, e todos, cada um em seu mundo singular, no mesmo barco, vivemos e respiramos nele. Espero que esta viagem de sonhos me torne um pouco mais piedosa peregrina quando reafirmo: “Ó vem meu Piloto ser!”, sabedora de que, “como as águas cobrem o mar, toda terra há de se encher do amor de Deus e da glória do Senhor como as águas cobrem o mar!” (Hq 2.14.)

Elizabeth Gomes

segunda-feira, agosto 07, 2017

INIMIGOS


“Persegui os inimigos e os alcancei, os esmaguei e 
os pisoteei e nunca mais se levantaram!” (Sl  18.37-38)

A mocidade de nossa igreja cantava este coro com veemência e animação e por dentro eu me encolhia de vergonha. Certo que era baseado em versículos bíblicos (Salmo 18.37-38), verdade que o cristão tem lutas e, consequentemente, inimigos contra quem luta, mas a exaltação guerreira parecia totalmente contrária ao que Jesus Cristo, Príncipe da Paz, nos ensinou. “Eu não tenho inimigos,” eu achava. “Haja paz na terra a começar em mim”, cantei no coração.

A belicosidade de muitos crentes por toda história humana é pedra no sapato em nossa caminhada com Deus, e pedra de tropeço para muitos que observam o nosso caminhar. Mas tenho de admitir que a Bíblia relata muitas inimizades ferrenhas. Olhe o que diz a Palavra de Deus sobre inimigos.

A primeira referência a inimizade ocorre na Queda, e foi uma declaração de Deus à Serpente:
Porei inimizade entre ti e a mulher, entre atua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar (Gn 3.15).

Até os dias atuais, existe inimizade entre o descendente da Humanidade e o descendente da serpente, aquele cobra safado chamado diabo. Inimigos atacam o povo de Deus por todo lado (Ex 15.6, Lv 26.8, Js  7.12 , Jz 5.31- Js  7.12 , Jz 5.31).

Quando pediram (e coroaram) um rei, Saul, Samuel relata a história passada de Israel, lembrando que foi sempre o Senhor que era seu rei (1 Sm 12.11 – 12) e os livrava dos inimigos. Davi, um rei segundo o coração de Deus, teve uma oportunidade singular de acabar com seu arquinimigo, mas não ousou levantar a mão contra o ungido do Senhor, mesmo que este o tivesse enganado e tentado assassiná-lo várias vezes. Perguntou: “Quem há que, encontrando o inimigo, o deixa ir por bom caminho?” A história é resumida em 1 Samuel 24. Quem sabe ele mesmo ensinou seu filho Salomão, compilador de provérbios, que “Sendo o caminho dos homens agradável ao Senhor, este reconcilia com eles os seus inimigos,” (Pv 16.7) e
Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e não se regozije o teu coração quando ele tropeçar; para que o Senhor não veja isso, e lhe desagrade, e desvie dele a sua ira. Não te aflijas por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos perversos, porque o maligno não terá bom futuro, e a lâmpada dos perversos se apagará (Pv 24.17-20).

Jesus, o Príncipe da Paz, citou o Salmo 110: “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te a minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés” (Mt 22.44; Marcos 12.36; Lucas 20.43); Pedro o citou em seu magnífico sermão estréia (At 2.35); Paulo em sua explanação sobre a ressurreição (1Co 15.25) e o autor de Hebreus em sua majestosa introdução à epístola que apresenta Jesus como sacerdote, profeta e rei ( Hb 1.13). Em sua morte sobre a cruz, Jesus, o Descendente da mulher, pisou a cabeça da serpente dando início à destruição de toda inimizade, e mostrando que os inimigos de Deus serão estrado dos seus pés. Desde o inicio de seu ministério terreno, Jesus ensinou: “Ouvistes o que foi dito, Amaras o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu porem vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5.43-45; Lc 6.27-35). A palavra aconselha: Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer (Rm 12.20). Contando a parábola do Semeador, Jesus incluiu na narrativa o fato de que haveria um inimigo que veio e semeou joio Mt 13.25, 28. Ele tinha inimigos, admitindo que os inimigos do homem seriam os da própria casa ((Mq 7.6, Mt 10.36). Antes de sua paixão e morte, Jesus chorou sobre Jerusalém, dizendo que seria destruída (Sobre ti virão dias em que teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados te apertarão o cerco, e te arrastarão e a teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o dia de tua visitação - Lc 19.41-44). Na Páscoa em que o traidor comia com ele à mesa junto com os outros discípulos, horas mais tarde, Jesus remiria seus inimigos e os reconciliaria com Deus. Em Cristo Jesus, nós que estávamos longe,
fomos aproximados pelo seu sangue. Ele é a nossa paz... de ambos fez um, derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade, aboliu a lei dos mandamentos em forma de ordenanças, para que dos dois criasse,em si mesmo, um novo homem, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade (Ef 2.13-17).

Existem inimigos da cruz de Cristo, cujo destino é a perdição, e o deus deles o ventre, a glória deles é infâmia, visto que só se preocupam com coisas terrenas (Fp 3.18). São inimigos no entendimento (Cl 1.21). Paulo definiu essa inimizade como “o pendor da carne”, ou inimizade contra Deus (Rm 8.7), uma das obras da carne (...prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a essas – Gl 5.19-21) que militam contra o fruto do Espírito.

Nossa luta, contudo, “não é contra o sangue e a carne, e sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes” (Ef 6.12), e para tais inimigos, temos de nos revestir com as armas que Deus oferece (Ef 6.10-18).

Em sua carta aos Romanos, Paulo fala que quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho... de quem recebemos, agora, o ministério da reconciliação 5.10-11). Advertindo os crentes de Tessalônica, Paulo disse
Caso alguém não preste obediência... notai-o; nem  vos associeis com ele, para que fique envergonhado. Todavia, não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão. Ora, o Senhor da paz, ele mesmo, vos dê continuamente a paz em todas as circunstâncias. O Senhor seja com todos vós (2Ts 3.15-16).

Entre as qualidades imprescindíveis do bispo está ser inimigo de contendas (1Tm 3.3). Nos últimos tempos os seres humanos serão egoístas (e uma série de pecados comuns hoje em dia)... inimigos do bem (2Tm 3.1) e Tiago lembra que a amizade do mundo é inimiga de Deus (Tg 4.4-6).

Diante de tantos trechos sobre o que Deus pensa de inimizades, fico estarrecida ao observar comentários na mídia quanto à política, nas redes sociais, nas igrejas cristãs (tanto as mais ortodoxas como também as apóstatas!), no trabalho e nas famílias. Numa família que conheço, as filhas acusaram a mãe de insano malfeito; noutra família um irmão processa sua irmã e cunhado porque seu filho quebrou o braço brincando com o primo no pula-pula. Este irmão (que é pastor) defende que só os processou para acessar o seguro de indenização, mas o casal que foi processado (o esposo também pastor) ficou tão ferido que recusa qualquer contato com o irmão ou com a mãe que não teve nada a ver com o assunto, nem com outro irmão que está com câncer terminal e o recebeu em casa. Numa igreja, uma mulher que encantava com sua voz no culto, engana quatro ou cinco casais a fazer um investimento de todas as suas economias num esquema fraudulento, e depois “some” da igreja e da cidade, deixando os irmãos em Cristo feridos e sem recursos. Casais brigam, divorciam, juntam-se a outros e querem ser reconhecidos como inculpáveis na igreja e fora dela. Pessoas casam-se, enganando aquela com quem casou e assumindo uma relação ou série de casos homossexuais. Há inimizades de todo tipo e muitos abismos parecem intransponíveis. Na terra sob domínio de Satanás, será assim até que o último inimigo, a morte, seja vencido por Jesus Cristo (1 Co 15.26).

Amo a expressão Shalom aleichem e o costume de muitos irmãos em Cristo de se saudarem com “a paz do Senhor”. Mas temo que por muita gente seja dita da boca para fora. Algumas pessoas dizem “Eu preciso sentir paz para perdoar fulano de tal”, ou “vou orar para ver se consigo paz a respeito desse caso”. Esquecem que o árbitro no coração que rege a vida do crente é a paz de Cristo – conquistada na cruz, paga com sangue, à qual fomos chamados em um só corpo (Cl 3.13-17).  Antes tínhamos inimigos porque éramos inimigos de Deus, estávamos longe e éramos alienados. Mas se cremos em Jesus “temos acesso ao Pai em um Espírito... já não somos estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e somos família de Deus” (Ef 2.13-19).


Elizabeth Gomes

segunda-feira, julho 24, 2017

DEPRESSÃO, PÂNICO, E VESPÕES

Não sei como consegui perder a página com a postagem de janeiro de 2011 a qual repito aqui.


“Depressão dói mais do que aguilhoada de vespa na alma”. Quem disse isso não sabia que eu já experimentei os dois, na alma e no corpo. Ferroada no dedo, no beiço, nas costas – nada se compara à fisgada da bandida, na alma. Principalmente para quem é alérgico a flutuações do humor. Vem daí, que eu estava lendo Deuteronômio 7 e deparei com o termo “vespão”, em um contexto de depressão e de pânico. Sabe como é – parece coincidência, mas é apenas que algo conhecido chama a atenção.

O contexto do relato é a preparação do povo israelita para a conquista da terra prometida. Até aí, tudo bem. Deus diz que o povo irá inevitavelmente vencer nações mais poderosas. Maravilhoso! Deus recomenda duas coisas a serem mantidas em mente: guardar a lealdade ao pacto que ele fez com o povo, e obedecer aos mandamentos pactuais. Ótimo! Sobretudo, porque tem mais. Deus promete que o povo seria bendito, prolífero, sadio e bem sucedido. Quem quer mais? Um pedaço de quindim, talvez?

Entretanto, a coisa muda quando vem a recomendação: Não tenha temor, quando perceber que as nações são mais numerosas, dizendo: como poderei desapossá-las? Não queremos nem pensar; vai que acontece! Pior ainda é quando Deus diz que mandará vespões entre eles [os inimigos], até que pereçam (v. 20). Aí, a gente pensa: “E se as vespas se voltarem contra mim?” Pelo menos, a minha experiência diz que abelha, vespa ou marimbondo, todo esse exército fedido prefere, no meio de tantos, atacar logo a mim. O interessante é que a palavra “vespões” (hb., tisir’rāh) tem um sentido de “pânico” e “depressão” (cf. Peter C. Craigie, The Book of Deuteronomy. Grand Rapids, MI, Eerdmans, 1976, p. 182, n. 14).

Antes de chegar ao ponto, deixe-me colocar quatro coisas (sobre as quais poderemos tratar mais detalhadamente, em outra ocasião): 
(1) Depressão não é um mal em si mesmo; ela está para a alma assim como a dor está para o físico: previne que passemos o limite de nossa capacidade. 
(2) Depressão pode ser causada por problemas espirituais com reflexo no corpo, ou pelo corpo com reflexos na alma. 
(3) Depressão nem sempre é fruto de pecado, mas também não poderá ser seu motivo. 
(4) Em qualquer dos casos há uma ação requerida daquele que sofre a depressão, no sentido de se utilizar bem dessa provação a fim de recuperar o contentamento no Senhor.

Como reagir a dois desses marimbondos “cavalo do cão” que nos atacam a toda com veneno paralisante – depressão e pânico!? Bem, se for daqueles de asas e ferrões, e não houver alergia: repouso, imobilização da área, torniquete (incisão e sucção removem 20% do veneno se feitos na primeira meia hora), sem estimulantes e muito líquido. Se o caso for pior, hospital, depressa! Mas, se for daquelas que pegam a alma, amarram, amordaçam e fazem definhar, aí, sendo de fundo físico, um médico e um bom conselheiro cristão poderão ajudar; se for de fundo emocional (a maioria das vezes), o tratamento poderá ser caseiro. Em qualquer dos casos, requererá a aplicação do quarto item, acima. A ação prescrita envolve, entre outras coisas, o uso da memória. Em todo o texto de Deuteronômio, caps. 4 a 8, é enfatizado o recurso da memória: “lembrar” e “não esquecer”.

Lembrar as coisas que o Senhor fez para e em sua vida. Os israelitas, em função da falta de confiança em Deus (Dt 1.44), haviam sofrido uma derrota militar sob um ataque como que “de abelhas”; agora, o Senhor lhes prometia a mesma paga aos inimigos. Aí está! As depressões poderão ser nossas grandes amigas quando precisarmos de um recesso (como quando salta de um muro e flexiona os joelhos a fim de diminuir o choque); mas se nos deixarmos dominar pela depressão ou pelo pânico, o veneno vai direto à memória. A promessa do Senhor aos israelitas, agora, é o contrário: ele mandaria vespões entre eles [os inimigos], até que pereçam (v. 20).

No nosso caso, são vespões contra vespões; e lembranças são como marimbondos santos que nos auxiliam na vitória contra a depressão e o pânico. Temos de manter na memória o dia da nossa salvação, quando, na cruz, o Senhor venceu o aguilhão do pecado, e sarou nossas feridas. Durante todo tempo, agora, ele tem nos disciplinado para a batalha, para que não sejamos (adaptando a figura) como meninos fugindo de abelhas (cf. Ef 4.14). Ceder à tentação de se deixar levar pelo “branco” que dá na mente, pela modorra que segue o dito: “não me faz rir que dói”, ou pelo sentimento de não querer ser consolado, tudo isso é como feronômio que só atrai mais marimbondos. É preciso lembrar os mandamentos e promessas do Senhor. Se acharmos que não dá para lembrar nada, alguém poderá ser o “grilo falante” da nossa consciência, lendo a Bíblia (Salmo 107; Mateus 26.36-42; João 12.23-28) ou outro livro (p.e., David Powlison, Uma Nova Visão: SP, Editora Cultura Cristã, 2009). Orar, agradecendo a Deus as experiências específicas com sua bondade durante toda a vida é um “santo remédio”!

Não podemos nos esquecer de quem Deus é. A Bíblia diz: Não te espantes diante deles, porque o Senhor, teu Deus, está no meio de ti, Deus grande e temível (Dt 7.21). Medo de quê? Futuro, pessoas, situações, tudo? Deveríamos ter medo de não confiar em Deus. A promessa do Senhor foi que ele estaria no meio dos israelitas, do mesmo modo que ele está no nosso meio, habitando em nós e no meio do problema. Ele é Deus presente; não estamos sós.

Deus tem um propósito e um plano bom para nós. Deus disse ao povo que daria a vitória na conquista da terra prometida, pouco a pouco, porque ele não estava preparado, ainda, para governá-la e para que as feras do campo se não multipliquem contra ele. O Senhor, em tudo nos prepara para a vitória (cf. Romanos 8.22-39). Não podemos nos esquecer de que Deus nos amou, entregando seu Filho a fim de que tivéssemos a vida eterna (cf. João 3.16). Seu propósito é o de que vivamos uma vida de tempo e qualidade eternos. As muitas lutas são parte do seu plano para fortalecer nossos joelhos. Hebreus 12.11-13 diz que a “disciplina, no momento, não parece ser motivo de alegria”, mas, depois, produz fruto de justiça. Assim, somos instados a restabelecer as “mãos descaídas e os joelhos trôpegos e fazei caminhos retos para os pés”, a fim de sermos curados. Dobrar os joelhos diante de Deus, e exercitar os joelhos diante dos homens cura pânicos e depressões. (Você já tentou matar marimbondo, no quarto, com toalha de rosto?).

O Senhor é homem de guerra (Êxodo 15.3). A vitória que ele dá, requer o exercício da lei da guerra. Primeiro, retire da cabeça os livros sobre a arte da guerra (tem muitos, novos e antigos; cf. Carl Von Clausewitz, 1780-1831). A lei da guerra, na Bíblia não é a da vitória da carne autônoma, independente, egoísta; é a arte de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como já amamos a nós mesmos. Assim, Paulo também diz que “nossa luta não é contra o sangue e a carne” (Efésios 6.12). Nessa luta contra a depressão e o pânico, os inimigos são aquelas coisas que militam contra o Espírito de Deus. Paulo também diz, em Gálatas 5.13-25, que nossa carne é escrava de lutas intestinas: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas (vv. 19b-21). Contra esses, a ordem bíblica é: (1) destruir o poder de fogo inimigo e inabilitá-lo para a luta; (2) subjugar o inimigo interno até à morte e não permitir que o seu ambiente externo tenha força de contra-ataque; (3) a guerra só termina quando a vontade do inimigo for inteiramente dominada pelo Espírito de Deus (cf. Dt. 20.10-18).

O ponto chave em tudo isso é: “mais vale dois marimbondos voando do que um na mão”. Dt 7. 23-26, finalmente, reafirma aos israelitas a promessa de Deus, de destruir o inimigo enquanto os prepara e fortalece para a vitória (vv. 23-24). A parte de Deus, deixemos com ele e confiemos em seu poder e bondade. Quanto a nós, havemos de queimar todos os ídolos e parafernália de idolatria – até mesmo, o culto aos rótulos diagnósticos, o temor da doença, os caldos de galinha psicológicos etc. A depressão e o pânico são tão valorizados que parecem prata e ouro, mas são apenas peças banhadas que escondem cobiça (quebra dos primeiros quatro mandamentos) e sujeição à carne (quebra dos últimos seis mandamentos).

Bem sei quando dói a picada do marimbondo e não quero ser um vespão na sua tristeza. Antes, peço a Deus que o veneno da bendita acione o antídoto da Palavra de Deus e sua comunhão a fim de que você reúna toda a fraqueza dos ossos, músculos e nervos, e toda a força e óleo da graça para sair campo afora, catando mel de abelhas.

Wadislau Martins Gomes