quinta-feira, maio 11, 2017

LIMPANDO OS ARMÁRIOS




De vez em quando, percebemos que os armários estão tão abarrotados de tralhas que não conseguimos achar nada. Quando planejamos uma viagem, há mudança de estação, ou mesmo percebemos um mudança interior, um bom jeito de resolver pendências é eliminar o supérfluo, reciclar o que é aproveitável, e exercer verdadeira generosidade compartilhando o que possuímos e amamos.

Nos lares judaicos, os dias antes de Pesach eram de limpeza extrema de cada canto da casa, botando para fora tudo, de vestimentas até alimentos, para guardar novamente – depois de eliminar qualquer fermento que encontrassem. Os oito dias de celebração da libertação do cativeiro do Egito tinham de ser pareve: não se comia nada fermentado. Em vias de deixar suas casas indo ao deserto onde vagariam por quarenta anos, não havia como deixar crescer o pão – daí o matzo substituiria a challah, e de mochilas prontas eles comeriam o cordeiro vestidos com roupas e calçados para a viagem. Mais de quatro mil anos depois, a “caça ao fermento” continua a marcar a memória das crianças israelitas. Hoje os cristãos não têm esse hábito judaico, mas deveríamos estar atentos à advertência de Jesus: “Guardai-vos do fermento dos fariseus” e nos livrar do mofo das idéias altaneiras e das coisas que acumulamos no afã de ter e ser mais.

Limpar os armários, quer de alimentos quer de roupas, calçados e mil coisas mais, é um hábito saudável. Quando minha mãe teve de sair da sua casa para morar com minha irmã, a tarefa que me coube na visita que lhe fazia era descartar o que não deveria levar. Ela tinha alimentos em latas de cinco anos depois da validade expirada. Sei exatamente quanto tempo, porque ela tinha o costume de marcar na lata a data em que comprou “esse espinafre”, “esses mariscos” que guardava para uma ocasião especial, os pacotes de castanhas e passas de anos passados... Quando cheguei ao armário de remédios, vi o risco que ela passara: na Virginia dos anos noventas tinha remédios do Brasil do fim dos anos sessentas – melhoral, mercúrio cromo, sonrisal! Joguei tudo fora, e vi mamãe chorar.

No guarda roupa a coisa não estava muito melhor. Amei descobrir uma saia xadrez que ela comprara em Porto Alegre quando eu era ainda adolescente – confesso que tomei para mim e usei mais alguns anos antes de transformar em jardineira para minha neta. Era lã de primeira e a traça e a ferrugem não tinham corrompido! Mamãe era muito organizada, e em cada roupa pendurada no cabide, ela guardava a etiqueta da data em que comprou ou mandou fazer, mencionando quais os acessórios que combinavam. Quando ainda trabalhava, ia tirando e usando as roupas em ordem em que estavam guardadas, e colocava uma borrachinha no cabide para indicar se estava lavada e passada ou se poderia usar mais uma vez antes de lavar. Ela tinha chapéus dos anos cinquentas, e, dobradinha, embrulhada em papel de seda, uma roupa chinesa que sua tia avó, médica missionária na China, dera-lhe quando ela era menina de uns treze anos. Eu tenho esta túnica guardadinha em meu armário de Mogi das Cruzes. Eu debochava dos costumes acumuladores de uma mãe que cresceu durante a depressão dos anos trinta e nos criou como filhas de missionários nos cinqüentas e sessentas. Mas aprendi muita história com esses vestidos antigos.

Minha irmã e eu aprendemos cedo que não podíamos esbanjar, que as roupas e sapatos eram caros (tínhamos, cada uma, um par “chique” para a igreja, um para brincar no quintal, e o sapato de uniforme para a semana toda). Quase não comprávamos roupa; éramos abastecidas quando a cada quatro ou cinco anos, íamos com a família de férias para os Estados Unidos, onde diversas igrejas tinham “mission barrel”, um barril (ou melhor, baú) repleto de boas roupas usadas para a família missionária. Enquanto lá, os avós e as tias faziam questão de nos presentear com roupas para o natal e nossos aniversários, mas nossas pièces de résistance eram os retro fashion que nós aprendíamos a usar e quando nos perguntavam onde compramos, dizíamos simplesmente “nos Estados Unidos”.

Somos sempre missionários e, depois de mais de cinquenta anos, aprendendo a viver com parcimônia, sou grata pela mãe que nos ensinou a não colocar nosso amor nas coisas – ainda que ela mesma acumulasse e usasse mil velharias. Mas sou grata por conviver com um marido generoso que me deu uma visão mais ampla do que se deve guardar e o que se deve dar, esbanjando beleza e graça em todas as coisas. Pelo menos duas vezes por ano, eu faço uma limpeza geral no meu armário. Se tem alguma coisa que eu não visto há mais de ano, isso vai para a pilha de “dar”. Se engordei ou emagreci, e tem alguma roupa de que gosto muito mas não fica bem em mim, vai para a pilha de “dar”. Confesso que tem umas duas ou três peças que ainda não me servem mas que coloco como meta para perder peso. A pilha de “reciclar” é menor que a de dar, porque fazer reforma implica em gasto, apesar de eu aproveitar e redimir muita coisa. A pilha de dar tem de se tornar um monte, e imagino as diversas pessoas que se agasalharão com aquilo que me abrigou. Aliás, “dar” também implica em gastos: lavar e passar, tintureiro e, às vezes, costureira para pequenos consertos. Não dou aquilo que eu me envergonharia de usar. Deixar bonito, cheiroso, com botões pregados e barras feitas faz parte de dar com alegria.

Faço essa limpa nas minhas coisas e nas de meu marido – sempre perguntando a ele se concorda que demos tal camisa ou calça. Quando os filhos estavam em casa, participavam dessa tarefa (assim eu não dava o que eles não queriam que desse) e se alegravam em compartilhar roupas, calçados e brinquedos.

Engraçado que, a cada vez que vasculho e limpo meu armário, Deus faz questão de me dar algo novo. Tenho duas amigas irmãs que no passar dos anos, diversas vezes, compartilharam comigo. sacolas e malas de roupas de qualidade, e nessa fartura eu compartilho com outras amigas. Depois de uns anos, renovam-se as vestes. Divertimo-nos com a criatividade e variedade que Deus nos permite nessas limpezas e recicladas.

Lembro-me especialmente de duas igrejas que criaram “boutique missionária”, onde obreiros que ganham pouco pudessem abastecer suas malas e vestir suas crianças com boas roupas. O “Conte Comigo”, ministério das mulheres de professores do seminário às mulheres jovens de seminaristas e pastores “principiantes” também tem um farto guarda-roupa disponível a quem precisa. Algumas igrejas promovem bazares, não para angariar fundos em substituição ao dízimo, mas para que pessoas com menos recursos possam “comprar” a preço simbólico coisas úteis de que necessitam. Qualquer que seja seu método de distribuição para quem precisa, deve ser feito levando em conta a dignidade da pessoa humana e a beleza dos relacionamentos em Cristo.

Algumas “reciclagens” são inesquecíveis. Quando eu e minha irmã éramos crianças, nossa tia fez coroas de princesa com pedaços de bijuteria quebrada e brincos sem par – nossas coroas trouxeram um senso de majestade e valor a duas crianças solitárias. Quando papai faleceu, entre suas coisas deixou umas vintenas de lindas gravatas de seda, algumas espalhafatosas, muito demais para o gosto de meu marido. Abri as costuras de cada gravata e as costurei, fazendo uma saia multicolorida que usei uns dois anos em festa antes de dar para minha filha que aproveitou por um tempo antes de passar adiante. Uma sombrinha detonada de tecido forte de oncinha virou uma sacola prática que uso a mais de dez anos. Um tailleur clássico de minha mãe virou um conjunto chique e juvenil para uma menina linda. Reciclar é exercício de criatividade!

Não podemos nos limitar a dar o que não usamos mais. Uma irmã querida (hoje no céu) estava em casa num almoço e viu que a porta de meu forno não parava fechada. Naquela semana, um caminhão chegou em casa com um fogão novinho em folha. Uma vez, uma mulher cristã pensava em trocar de geladeira, quando soube que a geladeira de uma amiga havia “pifado”. Comprou e mandou entregar uma geladeira na casa da amiga, e só comprou geladeira nova para si no ano seguinte. As duas são gratas ao Senhor que é dono das geladeiras, fogões, aparelhos domésticos, e todos os bois nos milhares de campos da terra.

Limpar os armários é mais que livrar-se do excedente e dar a outro que precise. Implica em limpar os recantos e lugares escondidos de nossa vida, pensando no próximo e fazendo algo tangível, aas vezes a quem nem imaginávamos.

Quando mamãe vivia na terra, ela gostava de estender a roupa no varal, e escrevia nomes nos prendedores de roupa. Ao colocar os prendedores, orava pela pessoa cujo nome estava na sua mão. O coração sempre disposto a falar com Deus que mamãe demonstrou, é um legado muito precioso que espero aprender e transmitir a outros. Depois que ganhou uma secadora, ela passou a usar o tempo “da roupa”para ler sua Bíblia (além das muitas outras horas em que a estudava). Não tem preço a lembrança de uma mãe piedosa que aproveitava cada detalhe comum do cotidiano para atribuir a Deus a glória e amar as pessoas que pertencem a ele. Tudo tinha esse propósito.

Além do prosaico e comum com que vivemos todo dia, a limpeza dos armários pode significar glória e tesouros. Quando minha avó comprou a casa em que mamãe passou os primeiros anos da sua vida, descobriu atrás duma parede uma grande caixa com jogo de talheres de prata do tempo da revolução americana em final do século XVIII. Tesouros diferentes e intangíveis, eu encontrei revirando as “tralhas” de minha mãe para ajudar a limpar os armários. Proponho que essa limpeza seja feita de quando em quando – sempre disposta a tirar as teias de aranha e aguentar o cheiro do tira-mofo para tornar a vida mais organizada, e dar alguns passos de generosidade enquanto melhoramos nosso próprio espaço. Nunca se sabe o quanto poderemos alargar o espaço e expandir o bem estar de outras pessoas!

Elizabeth Gomes

quarta-feira, maio 10, 2017

BELEZA TEOLÓGICA SEM PRETENSÃO DOGMÁTICA





UMA INCURSÃO NA PALAVRA E NA MARCENARIA

Beleza só por beleza poderá ser pura vaidade – concluiu o hábil pregador das coisas do Criador e da criação. É como estudo e conhecimento, escrita e publicação, madeira e marcenaria: quando sem peso de glória, é mais para peso de gafanhoto. É correr atrás de vento de mocidade no tempo da penumbra, de fio de prata rompido, de nuvem chovida, e de pote quebrado junto à fonte. É como boca de beco, desafino de medo, e espanto sem grito. É ânsia de produção e aplauso sem apetite nem dente. 

Isso é, verdadeiramente, coisa séria para quem esculpe com palavras e harmoniza madeiras. Lá em casa, por exemplo, quando canso de uma oficina, vou à outra, acompanhado sempre da Palavra de Deus e da oração. Mudam as ferramentas, numa, o Aurélio, o Othon Garcia, e um e outro escritor de gosto (que de letras sei pouco) e, noutra, a serra, a plaina, o martelo e mais um sem número de apetrechos. Numa, o rasgo do texto abrindo a mente e, noutra, o traço na madeira e o risco de sangue na mão (que nunca passei de servente e aprendiz). 

Beleza ainda que por beleza além de linda será sábia e verdadeira se for bela como a santidade do Criador e como toda a palavra que sai de sua boca. Salomão relacionou a experiência das cãs à florescência da amendoeira. De fato, há paralelos interessantes entre o labor da palavra e o lavor da madeira. Há gramática, metro, conjugação, esquadro, conjunção, junção, e há estilos. As palavras cuidadosamente usadas, disse o Sábio, são como pregos bem fincados. 

Em quaisquer das responsabilidades e prazeres, o que eu peço é que Deus fixe suas palavras no meu coração e me conceda olhos e mãos para louvá-lo no uso da madeira. Que eu não use o estudo e a pregação da Palavra nem a escolha e o trato da madeira dos modos contra os quais advertiram os profetas: são como “espantalho em pepinal” e “ídolos mudos”. Antes, sejam as minhas palavras ricas como jóias e as minhas tentativas artesanais sejam obras santas como no Templo do Senhor. Sejam a minha teologia e a minha prática, figura pública e privada, mente e coração, e os membros do meu corpo, sempre fiéis a Deus e coerentes diante de Deus e dos homens, como as de Cristo no madeiro. 

Ah! E haja madeira boa para meus projetos – e madeira da boa para as minhas costas tanto para apoio quanto para disciplina.


Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, abril 17, 2017

NOVIDADE DE VIDA


A Semana Santa, para os judeus a semana da Pesach, lembra a libertação da escravidão do Egito e a peregrinação rumo a Terra Prometida. Para quem crê em Jesus não há como deixar de comunicar a morte e a ressurreição a amigos e companheiros de peregrinação. Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Pão da vida sem fermento — matzo — que comeu as ervas amargas do cálice da ira de Deus e deu-nos o cálice da nova aliança no seu sangue e, hoje, o vinho da alegria indizível de sua presença.

Em que a ressurreição de Jesus Cristo faz diferença em nossas vidas? Em tudo! Esse “tudo” inclui atitudes, ações, comissões e omissões. Dois discípulos caminhavam tristes com os terríveis acontecimentos dos últimos dias. Todas as suas esperanças de libertação e de um novo reino de justiça pareciam frustradas com a morte daquele que criam ser o Messias. Outro caminhante se aproximou deles e perguntou o que tomava conta das suas emoções. “Só você não sabe do que aconteceu nesse Pesach em que esperávamos que alguém maior que Moisés nos desse libertação completa e perene?!”O estrangeiro foi falando das Escrituras, expondo de alef a tau tudo que Deus falou e fez. Só depois de atender o convite “fica conosco que já é tarde e o dia declina”, sentado à mesa para repartir com eles o pão, quando agradeceu ao Pai, é que viram quem era! “Não nos ardia o coração quando ele nos falava?”

Ressurreição é transcendência onipotente falando com linguagem compreensível das coisas eternas que removem as pedras do caminho e transportam vida, tornando-a crível e praticável. “Por que buscais entre os mortos ao que vive?” e “Por que choras?” muda para “Não temais; ide dizer a meus irmãos que vão à Galiléia; lá me verão (Mt 28.10). Quem testemunhou a crucificação e o túmulo vazio não pode mais viver em temor—tem uma missão a cumprir: Ide dizei a meus irmãos.

As reações dos discípulos foram diversas. Uns viram e creram. Outros permaneceram incrédulos. Outros só creriam depois de colocar o dedo nas feridas de Jesus. Soldados foram pagos para dizer que roubaram o cadáver. Mas não havia cadáver. Ele andou entre nós, falou conosco, partiu pão conosco. Muitos entenderam, outros entenderam mal, ainda outros afirmaram tratar de embuste mesmo contra as evidências da verdade.

Quando penso em cumprir a missão dos que testemunharam a crucificação — viram-no colocado no sepulcro que pretendiam encher de perfume e flores, viram a pedra removida, o túmulo vazio, ouviram os anjos falando, o próprio Jesus perguntando “por que choras”, chamando Maria pelo nome — eu mesma olho para a Grande Comissão que exige integridade na feitura de discípulos: tudo que somos e temos, transparência realista, consciência do que não somos e, até mesmo, nossas carências. Os discípulos — gente como nós, ignorante e covarde, medrosa, orgulhosa e desejosa de obter o melhor lugar no reino — passaram a ter coragem e ousadia de falar e não se calaram diante de ameaças, cuidaram do rebanho de Deus, e evangelizaram conterrâneos, vizinhos e estrangeiros, até os confins da terra. A marcha que começou com onze foi, ao longo dos séculos, acrescentada de milhares de pessoas de todas as raças, tribos e nações, e continua até hoje com grandes servos de Deus do presente e do passado, e gente pequena como eu.

Sou, como todo verdadeiro cristão, uma missionária — quero cumprir a missão de Deus de glorificá-lo também na obediência à Grande Comissão de Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo. Isso tem de ser feito com a integridade que vem do próprio Deus da paz que nos conserva espírito, alma e corpo íntegros e implica inteireza de cada aspecto de nossa vida (1Ts 5.23-24). Todos os que participamos do sacerdócio santo (1Pe 2.9-10) temos a missão de proclamar as grandezas daquele que nos chamou das trevas para o reino do Filho do seu amor. Isso não implica em pastorado feminino (que não tem respaldo bíblico), mas na ação e atuação de cada crente que cresce na graça e no conhecimento de Cristo Jesus. Rejeito qualquer “missão integral” baseada em marxismo ou ação social que não tenha como centro Jesus Cristo, morto por nossos pecados e ressurreto para garantia de nossa justificação. Como disse Lutero, “Somos todos mendigos”.

Entre as diversas crises de fé que temos e que observamos na vida de nossos irmãos, temos as dificuldades na política, na ética, que nos forçam a enxergar o que não queremos ver e de cujas baixas não conseguimos escapar, tanto no ambiente que nos cerca quanto em nossa experiência interior — coisas que nos abalam e que, às vezes, nos devoram. “Quantos que corriam bem de ti longe agora estão, outros seguem, mas também sem fervor vivendo estão...“ (Hino Vivifica, 132 HNC).

Muitas igrejas (e seus membros individualmente) optam por aquilo que é conveniente, moderno, muitas vezes duvidoso, por estarem focados mais no pensamento do mundo do que no de Jesus Cristo, de quem tomamos o nome. Nossa mensagem tem de ser ortodoxa: anunciando todo o conselho de Deus com fidelidade segundo a fé na graça salvadora de Jesus Cristo. Isso, junto com uma fé firmada na morte e ressurreição de Jesus Cristo, na Palavra de Deus, tem de ser vivido na prática. Se agirmos sem ortopraxia, anularemos qualquer ortodoxia proclamada. Hoje, alguns nem mesmo querem mais ser ortodoxos. (Sempre houve pessoas assim.) Preferem ser atuais, e sua contextualização anula os textos firmes da Palavra da Verdade. Como dizia um tio amado, mas enganado, “É necessário sempre um pouco de heresia”. Vemos cada dia mais as características dos últimos dias em que virão tempos difíceis. A advertência descritiva de Paulo ao filho na fé, Timóteo, está mais real que nunca:
Nos últimos tempos os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder (2Tm 3.1-5).

A volta do Senhor é iminente, e é nossa bendita esperança, mesmo que muitos amigos no evangelho ignorem a centralidade da volta de Cristo para nossa ética social. Rejeito a idéia de que nossos atos irão apressar ou causar a volta de Jesus (como se nossas obras tivessem mérito!). Creio nas palavras do Jesus ressurreto e glorificado: “Eis que venho sem demora ... Eu sou o Alfa e o Omega...”

O brilhante Charles Wesley escreveu um hino dizendo: “Mil línguas eu quisera ter para entoar louvor” (SH 211), e eu tinha o mesmo sentimento: queria saber expressar o louvor de inúmeros modos e acabo não conseguindo comunicar sequer em meu próprio idioma as profundezas e a amplidão do amor de Deus. Uma das sequelas que retive depois de um AVC sofrido em 2007 foi que perdi a cristalinidade da voz com que gostava de cantar. Tenho me descoberto, no entanto, uma salmista de coração. Com voz de taquara rachada, ainda louvo porque meu louvor não é fruto de voz e respiração treinadas. O meu louvor, como disse o autor de Hebreus, é fruto de lábios que confessam o teu nome (Hb 13.15). Experimentei a disciplina do Senhor, “para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade”, que produz fruto pacífico aos que por ela tem sido exercitados, fruto de justiça (Hb 12.11). Agora vivo para o seu louvor na paixão e sofrimento, no sepultamento de minhas próprias aspirações, na alegria daquela manhã de domingo em que ouvimos que ele não está aqui, mas ressuscitou! “Faz-me conhecer os teus caminhos; ensina-me as tuas veredas; guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação,” diz o salmista (Sl 25.4,5). Seja esta a minha oração, e a de cada salmista de coração!

Somos, sim, mendigos, mas que falam a outros mendigos onde podemos encontrar o pão! Cremos nas promessas futuras porque conhecemos o Deus que não pode mentir e que nos “tirou do império das trevas e nos transportou para o reino do seu amor” (Cl 1.13). Ainda que indignos, somos povo de Deus, filhos de Abraão pela fé, enxertados na Videira. O apóstolo Paulo em Romanos 8, 9 e 10 mostra que Deus não rejeitou seu povo da aliança, o povo de Israel, e lembra ainda que para a salvação não há diferença entre judeu e gentio, escravo ou livre, homem ou mulher (Cl 3.23): fomos adotados como povo de Deus, enxertados em sua família. A ressurreição lembra o convite insistente de nosso Deus, que nutre e que cura, floresce e firma, a filhas de Eva e filhos de Adão que, pela fé, são também filhos de Abraão:
Volta, ó Israel, para o SENHOR, teu Deus, porque, pelos teus pecados, estás caído. Tende convosco palavras de arrependimento, e convertei-vos ao SENHOR; dizei-lhe: Perdoa toda iniqüidade, aceita o que é bom e, em vez de novilhos, os sacrifícios dos nossos lábios... tu és nosso Deus; por ti o órfão alcançará misericórdia. Curarei a sua enfermidade, eu de mim mesmo os amarei porque a minha ira se apartou deles. Serei para Israel como orvalho, ele florescerá como o lírio e lançará as suas raízes como o cedro do Líbano. Estender-se-ão os seus ramos, o seu esplendor será como o da oliveira, e sua fragrância, como a do Líbano. Os que se assentam de novo à sua sombra voltarão; serão vivificados como o cereal, e florescerão como a vide... (Os 14.4-7).


Elizabeth Gomes

sexta-feira, março 31, 2017

LOUCOS GLORIFICADOS




         Lembro-me de estar sentada na cozinha de minha avó Kate, vendo o velho de cabelo comprido e mãos retorcidas.
— Então, você é a menina do Dougie, ele disse.
Eu tinha cinco para seis anos, amava meu pai Douglas e nunca ouvi ele ser chamado de Dougie, mas soava como boa mistura de Douglas e Daddy. Acedi. Gato comeu a língua. Era a primeira e única vez que me encontrei com meu vovô Thomas Charles. Mais tarde perguntei a meus pais sobre ele e responderam apenas:
—  Ele está num hospital. Institucionalizado. Sempre foi meio louco.
Por que havia quadros tão bonitos pelas paredes da casa de Grandma Kate, embora todo mundo dissesse que ela era tão pobre e ele nunca havia dado nada a ela? Por que Grandpa Charles usa cabelo comprido – homens o usam curto? Exceto nos quadros de Jesus e Moisés e mais gente da Bíblia. Será que meu avô é dos tempos bíblicos? Será que ele morreu? Uma vez, quando visitamos o parque e zoológico de Richmond, o papai me disse que o pai dele tinha trabalhado muito nos parques; que era arquiteto de paisagens (paisagista). Mais tarde perguntei a mamãe o que era landscape architect, e ela respondeu:
— É um nome glorificado para jardineiro.
Eu gostava de nomes glorificados . Assistindo a televisão pela primeira vez na vida, fiquei encantada com algumas das propagandas: “Shampoo Haloglorifica os seus cabelos!” e tinha certeza que usando esse xampu eu não só ficaria mais linda, como também de alguma forma mais santa.
Eu tive sempre uma vaga lembrança do avô desconhecido, que foi pai de doze filhos e deixou minha valente e perfeita avó matriarcal a criá-los sozinha durante a Grande Depressão. Alguns anos depois, ouvi minha mãe e meu pai mencionarem que ele morrera na “Instituição”. Nada de grande luto. Só o vazio.
Hoje em dia, os problemas das doenças mentais são diferentes. As pessoas não ficam internadas em asilos por longos períodos. Vários amigos que conheço dos dois lados do Atlântico têm membros da família que lutam contra doenças mentais. Embora, hoje, não haja mais uma cultura de “internação” ou de mandar as pessoas que “ficaram loucas” para “instituições”, muitas são as questões não resolvidas. As famílias têm vergonha de falar delas. Frequentemente, familiares e amigos desejariam que houvesse simplesmente um jeito de “trancafiar” o “ofensor”. Membros da família taxados de “doidos” gastam adoidados. Talvez tenha sido a criança mais linda da casa, mas começa a fazer coisas estranhas e irresponsáveis. Acaba com todos os pertences da casa. Espera presentes de natal todo dia. Esconde e guarda comida em lugares esquisitos. Coisas como essas, quando alguns não se drogam e vão pelados para a rua em extrema insanidade. São crianças velhas — jamais cresceram e nunca souberam o que um jeito manso e gentil poderia fazer para mais uma vez torná-los belos.
Uma pessoa em recuperação atendeu ao telefone, na clínica Refúgio que meu marido dirigia em Brasília, e ouviu a pessoa na linha:
— É aí que ficam os loucos? — e ele, sem perder o compasso, respondeu:
— É. Aqui o melhorzinho baba!
Especialmente depois de sofrer uma AVC, eu sentia que não só o “melhorzinho” baba, mas o ditado brasileiro “entre médico e louco, todo mundo tem um pouco” me pareceu mais verdadeiro. Edward Welch descreve doenças “que caracteristicamente alteram o intelecto, as emoções ou capacidades comportamentais”. Estas podem “impedir o entendimento, colocar limitações sobre a expressão do coração, dando ocasiões para tentação e pecado, suscitando problemas singulares para as famílias ... porque elas imitam problemas espirituais do coração, são muitas vezes diagnosticados erradamente por conselheiros e médicos”.[1]
Ora, um blog não é lugar para um profundo e abrangente ensaio sobre doenças mentais – e com certeza eu não sou qualificada para fazer análise desses problemas. Tenho alguns amigos que são neurologistas respeitados, muitos que são psicólogos clínicos e até mesmo alguns psiquiatras, além dos conselheiros pastorais e de família com os quais tenho maior conhecimento. Só posso escrever como leitora cristã que deseja saber o que a Bíblia oferece aos que se encontram perturbados. É principalmente uma questão de esperança e de encorajamento.
Escrevo como quem baba – alguém que nem sempre consegue controlar a quantidade de saliva que produz – muito menos as questões mentais e psicológicas que confrontamos diariamente.       Escrevo como a criança que descobriu que seu avô foi rotulado de “louco” e mandado para um manicômio. Poderá ser uma jovem mãe que descobre que a criança que gerou e ama de coração tem uma doença mental que faz com que ela se perca. Um casal de meia idade que têm de lidar com a senilidade dos pais. Uma avó dos “anos dourados” a enfrentar a realidade da sua própria carência quando se esquece mais vezes do que se lembra das coisas, e que se lembra bem de “muito tempo atrás” — mas que deixa o feijão queimar e o chuveiro ligado até acabar a água, e que confunde os aniversários dos netos. Escrevo para amigos que tem medo de “perder o juízo”. Muitos há que querem agarrar com garra cada detalhe do passado para que não suma, ao mesmo tempo que desejam esquecer as coisas que doem no fundo mais profundo do coração e que ainda hoje os fazem sentir como “a criança sem mãe” do Negro spiritual.
       As deficiências mentais e emocionais nos lembram que ninguém é realmente normal. A deficiência demanda paciência, tempo, confiança, submissão e esperança – qualidades que a maioria de nós todos, normais, leve ou severamente deficientes, temos muita falta em nosso mundo pós moderno. Há necessidade de “consciência de que na vida, em algum tempo e em algum nível, passaremos por sofrimento físico e/ou psíquico”.[2]  Michael Beates faz alguns duros questionamentos:
Por que nós ... exigimos que todo mundo seja normal e pareça igual? Por que ... nos esforçamos tanto para esconder as pessoas com deficiências de nossa vista de todo dia? Por que algumas pessoas alquebradas visível e invisivelmente muitas vezes sentem que têm de esconder seu problema a fim de se juntar ao povo de Deus para o culto? Finalmente, e talvez mais importante, que respostas as boas novas do evangelho nos dão para estas perguntas, e como o evangelho nos dá esperança nessas situações.[3]
Uma amiga querida que luta com a bipolaridade e personalidade desintegrada; tem ilusões de que, se parar de tomar os remédios “pela fé”, o Senhor irá curá-la mediante ministrações televisivas de algum falso evangelista. Outra pessoa amada fica trancada em seu quarto com seus sonhos, enquanto espera que seja curada por um novo relacionamento, um novo amor – então, ela enterra os medicamentos e tenta experimentar novos amores.
Deficiências dessa natureza não são estranhas à Bíblia. O rei Saul foi atormentado por surtos de loucura para as quais Davi era chamado para cantar, tocar a harpa e consolar o rei – Primeiro caso de terapia musical que temos documentado (1Sm 14.14-23). Mais tarde, Davi buscou refúgio com o rei de Gate e fingiu-se de louco para salvar a própria vida (1Sm 21.10-15). Jó ficou totalmente desprovido, em desalentado e desespero, e sua mulher deu-lhe conselho de louca (Jó 2.8-10). A razão e o entendimento foram tirados da mente e do comportamento de um rei da Babilônia, Nabucodonozor, que se comportou como animal irracional (Dn4). Mais tarde, tanto a razão quanto o governo lhe foram restaurados.
A Bíblia percorre gama imensa de descrições, desde “símplices” (13) estultícia (9) louco ou loucura (24), estúpido ou estupidez (5) insensatez (54), falto de razão (3). O livro de Provérbios está prenhe de contrastes entre sabedoria e loucura, bom senso e insensatez, exemplificando diversos tipos de “problemas” espirituais, mentais, e emocionais que todos nós já vimos, quando não os experimentamos pessoalmente.
Na preparação para entrar na terra prometida, Moisés apresentou a seu povo a plenitude de bênçãos ou destituição das maldições conquanto eles obedecessem ou desobedecessem a Palavra de Deus. Fiquei intrigada por uma das maldições mencionadas: “O Senhor te ferirá com loucura, com cegueira e com perturbação de espírito ... e te enlouquecerás pelo que vires com teus olhos” Dt 28.28, 34). Uns 2000 anos depois disso, Paulo adverte a Timóteo sobre a maldade dos “últimos dias”, que, uns 2000 anos depois, parece em cada detalhe descrever os nossos dias:
...os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder ... sua insensatez será a todos evidente (2Tm 3.2-9).
A lista acima descreve tais comportamentos não como loucura, mas como pecados. Na cruz, Jesus orou: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 21.34). Há uma deficiência devida a ignorância, a qual é livremente perdoada. Mas ao olharmos o Evangelho, vemos que o Espírito estava sobre Jesus para curar e libertar. Beates diz:
...até o fim, continuamos a ver (embora às vezes sutilmente) um importante fio no tecido do nosso entendimento da fragilidade (espiritual e emocional) das pessoas no evangelho, e uma fraqueza (física representando nosso estado espiritual) como condição humana normativa. Reconhecer esta realidade é o primeiro passo para abraçar o poder vivificador do evangelho.[4]
Há em nossa família um menino muito especial que luta com deficiências de aprendizado, desafios mentais e neurológicos, e de certa forma sempre precisará de ajuda, médica e psicológica, para um bom funcionamento. Mas ele ama a Jesus e foi ensinado na sua Palavra. Quando era ainda bem novinho estava numa escola onde negavam a Trindade, e ele disse a seu pai, referindo-se à professora:
—Pai, diga a ela que Deus é três em um: Pai, Filho e Espírito Santo. Fala para ela como diz na Bíblia!
Mais recentemente, ele tem dependido do Senhor para fortalecê-lo nas áreas em que é fraco, e ora pedindo que “Deus me use com minhas deficiências para ajudar outras crianças como eu a conhecer a Jesus”. Temos tanto orgulho deste jovem quanto dos outros netos. Todos – normais, superdotados ou deficientes.
       O Evangelho é que nos dá esperança – inteiros ou “especiais” – de inúmeras maneiras. Paulo o diz com humildade e triunfo:
Visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes....as coisas humildes do mundo e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1.26-31).

Elizabeth Gomes




[1] Counselor’s Guide to the Brain and its Disorders, Edward Welch, Grand Rapids: Zondervan, 1991, p. 107
[2] Disability and the Gospel, Michael S. Beates, Wheaton: Crossway, 2012, p. 17.
[3] Disability, p 71.
[4] Disability, p. 61.

quinta-feira, março 30, 2017

AUTOIMAGEM — impressão & expressão (estudo 2)



Uma aplicação das doutrinas de justificação e
santificação à ideia de autoimagem

Impressão ou expressão
 “Ainda não me achei”, “não me entendo”, “sou complicado” e coisas semelhantes — são do tipo do comentário feito pela fatigada personagem de Agur, em Provérbios 30.1-3: sou demasiadamente estúpido para ser homem; não tenho inteligência de homem, não aprendi a sabedoria, nem tenho o conhecimento do Santo. Soa familiar (mesmo disfarçado)? Por que é que a gente é tão difícil? Por que é que, muitas vezes, sentimos que somos forçados ou nos forçamos a representar papéis que não são os nossos, que aparentemente nada têm a ver com quem nós somos? Na verdade, tem e não tem. Há papéis funcionais que confirmam o que somos (filhos, pais, irmãos, amigos etc.). E há papéis erráticos que são como caricaturas a realçar idiossincrasias.
Uma das maneiras caricatas com que nos apresentamos é a da atuação “por expressão” (ou altruísmo) e “por necessidade” (ou carência, egoísmo). Esses dois movimentos dos atos mentais e operacionais se devem a sermos motivados ora pela impressão que temos de nós mesmos ora pela expressão do que pensamos ser. Nos sentidos aqui presumidos, impressão é a ação de objetos exteriores sobre os nossos sentidos, com abalo, agitação e comoção do espírito. Expressão é exteriorização de pensamento e idéias por meio de atos ou palavras, figuração representativa, modelo, e personificação formativa do caráter. A proposta bíblica é que, quando somos impressionados por coisas do alto, pelo EU SOU, exprimimos nosso “eu” verdadeiro por meio dos papéis de filhos (de Deus), irmãos (em Cristo), e servos (de Deus e uns dos outros). Ao contrário, quando somos impressionados por pessoas e coisas, operamos reativamente, tentando causar uma impressão por meio de um “eu” artificial autônomo.
Está achando difícil? Certamente não será mais difícil do que nós mesmos nos achamos. Vamos lá, eu ilustro: imagine pessoas em uma situação comum no trânsito da cidade. Um transeunte experimenta sentimentos e pensamentos diversos enquanto caminha na provável segurança de uma faixa de pedestres. Ele considera uma possível imaturidade e impaciência da pessoa ao volante (que ele percebe como um intruso em seu passeio). Esse andante projeta uma imagem sob “impressão”. O motorista, por sua vez, também nutre pensamentos e sentimentos misturados, à espera que o semáforo fique vermelho para o pedestre (um invasor de sua rua) e verde para a sua própria liberdade. Esse piloto experimenta uma “expressão” de poder. Nem tudo, porém, é ou verde ou vermelho: o que atua por expressão reage a impressões diversas do mesmo modo que o que atua por impressão reage a variadas expressões do ambiente físico e relacional (por exemplo, pessoas ao lado, semáforo, guarda de trânsito, religião, mídia etc.). Pense no que ocorre quando o motorista percebe que os transeuntes são nada mais nada menos do que os Beattles.
Autoimagem em termos bíblicos
No estudo 1, “Uma aplicação de conceitos bíblicos à ideia de autoimagem”, citamos dois textos coligidos por Salomão: Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim, o coração do homem, ao homem, e: como imagina em sua alma, assim ele é (Pv 27.19; 23.7). Comentamos que a Escritura, em muitos lugares, revela que percepções de autoimagem baseiam-se sempre em um de dois pontos de partida: ou de uma visão do alto, verdadeira e sábia, ou de uma visão ensimesmada, artificial e estulta. Ocorre que a verdade é infinita e sua totalidade não cabe no cenário do homem finito, e, mais, a estultícia é incapaz de apreender e de reproduzir a totalidade da verdade. Assim, nós resolvemos o impasse por meio de considerar as coisas de modo perspectivo. Nesse horizonte humano, há dois pontos de fuga necessários. Um é o ponto de fuga no infinito, de onde Deus revela a si mesmo e, em sua sabedoria, o conhecimento que a pessoa poderá ter de si mesma por meio do reflexo da imagem divina. O outro é o ponto de fuga imediato, míope, em que a pessoa rejeita o conhecimento de Deus e reflete a si mesma, projetando a própria imaginação de sua relação com o mundo e com o próximo.
Impressão da lei e expressão da graça
Dá para perceber como é que estamos sempre mudando de face? Num momento justificamos nossas crenças e nossas ações e, noutro, separamo-nos de qualquer obrigação. Num momento sentimo-nos julgados, noutro, somos julgadores e, noutro, agimos como se estivéssemos além que qualquer lei ou juízo. Ora gritamos como doidos numa montanha russa ora mantemos uma impassível cara de pôquer. Tudo para causar um impacto pessoal, passar uma imagem falsa, levar a melhor, disfarçar uma vergonha... É da nossa natureza decaída, tapar o rosto para esconder carência de um valor de face. Não foi assim com Moisés, que punha véu sobre a face, para que ... não atentassem na terminação do que se desvanecia (2Co 3.13)?
Essa situação vem do Éden perdido, em função da culpa e do medo decorrentes. Esses dois sentimentos levam-nos a julgar-nos e aos outros de maneira incorreta, e a temer a exposição de nosso “eu”. Tão logo nossos primeiros pais pecaram, contudo, o Senhor prometeu-lhes a redenção (cf. Gn 3.15), isto é, a salvação por meio do Descendente da mulher — o Filho de Deus feito homem em cuja imagem fomos criados e somos transformados. A transformação envolvida nessa salvação é descrita no Evangelho por dois termos que preenchem a nossa carência de significado e de valor, a saber, justificação e santificação. A justificação e a santificação removem a culpa e o medo. A justificação redime o pecador da condenação da lei, segundo a qual ele era alheio a Deus por natureza, desconhecedor de sua própria origem e destino, e sem esperança num mundo de desafetos relacionais. Nesse sentido, a justificação liberta o crente das algemas da escravidão “para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21). A santificação, na mesma base da justificação, redime o salvo do poder escravizador do pecado e capacita-o a cumprir o espírito da lei. Assim, somos conduzidos ao conhecimento de Deus, ao conhecimento de nós mesmos, e ao conhecimento do outro com diferente senso de justiça e destemor por meio da aliança promulgada pelo próprio Deus, em Cristo e pelo seu Espírito.
O problema, portanto, é que nenhum esforço humano para transformar o “eu” poderá conjugar o ser em outra pessoa, singular ou plural. Isso quer dizer que ninguém muda a si mesmo, tal como ninguém pode levantar a si mesmo pelos cordões dos próprios sapatos, nem outros poderão mudar alguém, seja qual for a força do cordame ou as excelências das tralhas sociais ou psicológicas. Siga o raciocínio:
(1) Nossa vida e o conhecimento de nossa identidade residem no Verbo de Deus em cuja semelhança fomos criados a fim de refletir a glória de sua própria identidade e para usufruir o processo (cf. Jo 1.1-14); é disso que fala o texto de Ef 1.1-4, resumindo o processo na expressão para louvor da glória de sua graça (cf. vv. 6, 12, 14).
(2) A Bíblia diz também que todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.23-24), isto é, todos nós decaímos do estado original, por causa do pecado, e não temos mais condições de refletir a imagem de Deus. Todas as pessoas deveriam saber as coisas do homem mediante o seu próprio espírito, mas o homem natural, decaído, não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (cf.1 Co 2.11-14).
(3) As pessoas não regeneradas não podem, portanto, conhecer a Deus nem a si mesmas, como cita o apóstolo: não há quem entenda, não há quem busque a Deus ... Não há temor de Deus diante de seus olhos. Tais pessoas não temem a Deus para obedecê-lo, tornando-se, portanto réus de sua lei. Uma lei que condena os fora da lei e aos que vivem na lei ... para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado (cf. Rm 3.11-20). Até mesmo, os que pretendem viver sem a lei de Deus mostram a norma da lei gravada no seu coração quando a consciência e os pensamentos testemunham contra eles mutuamente acusando-se ou defendendo-se (Rm 2.14-15).
             Se as coisas são mesmo assim, como poderemos abandonar nossa impressão caricata para passar, então, à expressão da pessoa que Deus criou para que fôssemos? Paulo responde à questão, em Gálatas 3.22-29, dizendo que a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que crêem. Todos, crentes e incrédulos, nascemos sob a tutela da lei e nela encerrados, uns, buscando viver pela lei de Deus e, outros, pela própria pela lei. Àqueles aos quais é revelada a fé da salvação pela graça consideram a lei de Deus não como salvação por si mesma, mas como preceptora para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Todos nós que fomos batizados em Cristo e inseridos em seu corpo, a igreja, somos revestidos de Cristo. Como Paulo disse em outro lugar, somos regenerados, feito novas criaturas para a santificação (ou processo de desenvolvimento em fé e prática da Palavra de Deus). Daí em diante, vamos nos desvencilhando dos papéis esdrúxulos a que naturalmente nos obrigamos e somos obrigados — Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher — para assumir a herança que nos liberta para uma vida de genuinidade e de autenticidade porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
               
O processo de santificação é operado em nós pelo Espírito de Cristo com base na justificação. Em Efésios 1.1-14, Paulo diz que somos feitos herdeiros das riquezas de Deus para sermos sua própria herança. Em Romanos 8.17-30, o apóstolo diz que somos herdeiros  de Deus e co-herdeiros com Cristo, andando com a ele em condição terrena para sermos também com ele glorificados. Como é que isso ocorre? A própria criação, nosso ambiente físico e social, aguarda a revelação dos filhos de Deus! Tal como nós, ela está sujeita à vaidade ... por causa daquele que a sujeitou, na esperança de ser redimida da corrupção para a liberdade dos filhos de Deus. Nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Até lá, no entanto, somos educados na paciência e na perseverança nos sofrimentos e na glória de Cristo. E não estamos sós nessa caminhada, mas temos a assistência do Espírito Santo a operar em nós propósito de sermos conformes a imagem do Filho de Deus. O Espírito de Cristo nos fortalece e habilita a sermos autênticos filhos e genuínos irmãos tanto na concessão do poder interior, por meio da oração, quanto no controle de todas as coisas em benefício da revelação da imagem de Cristo em nós.
Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou (Rm 8.24-30).
Wadislau Martins Gomes

sábado, março 25, 2017

AUTOIMAGEM (estudo 1)


        Aplicações de conceitos bíblicos à ideia de autoimagem.
               
Relendo os meus poetas brasileiros preferidos, dei com um poema que, há alguns anos, soou-me belo, mas desesperado. Hoje, o Autorretrato de Mário Quintana fez-me pensar num texto de Salomão, no Eclesiastes bíblico. Coisa da nossa terra, “debaixo do sol”, tão na cara como um nariz. Os dois poetas não puderam se furtar ao anseio otimista nem à constatação pessimista da presente realidade. Veja o Quintana:
 No retrato que me faço
— traço a traço —
às vezes me pinto nuvem
às vezes me pinto árvore...
ás vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida em que busco
-- pouco a pouco --
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
Diferente do Mário, o rei Salomão traceja, em Provérbios 27.19:
Como na água
o rosto corresponde ao rosto,
assim o coração do homem,
ao homem.
Fosse uma conversa levada num banco de praça e eu imaginaria a ironia do velho sábio de lá a sussurrar ao rei de cá: “É isso aí!”. Maior contraste, ainda, quando o rei Davi puxa o traço: O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. O seu louvor permanece para sempre (Sl 111.10).  E quando Salomão, de novo, dá o laço: Quem é como o sábio?E quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem faz luzir o seu rosto, e muda-se a dureza de sua face (Ecl 8.1).
Dá para perceber que o tema de um autorretrato tem relação com os temas da sabedoria e da estultícia implicadas numa autointerpretação. Coisas como autoimagem, autoconceito, autoestima, e daí em diante, fazem parte do ideário humano. São palavras de especial riqueza e de variado sentido usadas para se descrever o pensamento e o sentimento de autoconsciência, noção de autoexistência, valoração própria, etc. Especialmente, elas apontam para uma relação singular entre uma observação mais alta ou mais baixa e as decorrentes interpretações que as pessoas fazem de si mesmas.
Ambas, a estultícia inerente às observações e interpretações das filosofias dos homens sem Deus, e a sabedoria de Deus revelada nas Escrituras, são concordes ao dizer que nós vivemos em um mundo imagens. Aristóteles usou o termo fantasia para se referir à capacidade humana de pensar por meio de imagens. Há um mundo de formatos que nos obrigam a pensar em algum tipo de imagem, até mesmo, no caso de ausência de visão física, ou de afantasia, quando excepcionalmente uma pessoa não consegue formar imagens mentais. Nossa mente é tomada por formas do próprio corpo, objetos de uso, geografia próxima, e daí em diante. De modo geral e normal, vivemos num mundo imaginado. Tanto percebemos imagens quanto nos comunicamos por meio de figuras de linguagem.
De fato, as imagens que fazemos e as que comunicamos são partes da nossa própria criação e formação. Somos motivados no coração pela maneira como vemos a Deus e, consequentemente, ao mundo e às pessoas. Nessa dependência, as maneiras pelas quais outros vêem a Deus, coisas e pessoas acabam condicionando os nossos atos mentais e comportamentais. Sempre imaginaremos nossos retratos como refletidos numa dessas duas águas, ou do alto como chuvas benditas ou de baixo como poças narcisistas. A Escritura bíblica fornece um princípio básico geral para a ciência e arte de imaginar, dizendo: Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra (Cl 3.2). Nessa linha, a Bíblia toma como certo que todo mundo pensa e que, em matéria de autoconsciência humana, há dois pontos de vista: um espiritual, verdadeiro, vindo “do alto”, e, outro, “terreno”, natural e biologicamente engendrado.
                O apóstolo Pedro, num risco definitivo, diz que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pd 1.20-21). Com isso, ele desenha uma linha do horizonte da observação humana, posicionando acima dela o ponto de fuga infinito, isto é, a revelação divina, e, abaixo dela o ponto de fuga da interpretação humana.
Aqui, aplicando o texto à ideia de autoimagem, apomos: quem nós somos somente encontra significado verdadeiro na revelação divina, vinda do alto. Nem o horizonte da perspectiva humana será o ponto de vista particular que elucida a observação que a pessoa faz de si mesma nem o ponto de fuga da natureza servirá de parâmetro para uma autoestima ou avaliação de si mesma. Assim, é mesmo uma loucura, achar que alguém se pinta ou se busca, ou cria coisas que um dia existirão, na ânsia de encontrar a sua eterna semelhança. Antes, a verdadeira sabedoria crê que há um ponto de fuga superior, revelado do alto, por Deus, como luz que ilumina os nossos olhos e o próprio mundo para que o interpretemos (cf. Jo 1.1-4) Sem esse ponto de fuga no infinito, no próprio Deus, o que restará é “um desenho de criança... corrigido por um louco”. É assim que a Palavra descreve: se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência (Tg 1.23-24).
                A maneira como os pontos de fuga da perspectiva são estabelecidos fornece uma ideia de autoimagem e uma ideia de mundo. A crença sobre Deus é sempre uma determinante da idéia que o observador tem de si mesmo, de mundo, e de seu semelhante.
Nicodemos (cf. Jo 3.1-18), o mestre “terreno” em busca de autenticação, ainda que tivesse uma vaga ideia da verdade (pois foi buscar a Jesus), tinha também uma disposição mental errada quanto à verdade (pois considerou somente o aspecto humano de Jesus). Ele ouviu do Filho de Deus e Filho do Homem que o paradigma da graça divina para autenticação do ser humano é o próprio Mestre vindo do alto. Ouviu ainda que, para ter uma autoimagem assertiva, a pessoa precisaria de uma regeneração espiritual. Ao contemplar a morte de Cristo na cruz, ela tomaria consciência de sua verdadeira natureza criada por Deus e de sua natureza decaída, e constataria o amor de Deus, o perdão dos pecados, e o poder de uma viva e nova natureza. De fato, o Senhor Jesus Cristo é o resplendor da glória e a expressão exata do ser de Deus (cf. Fp 1.3), e é a plena expressão do ser humano, o Autor de nossa Criação e o Autor de nossa salvação. Fomos criados à imagem de Deus (Gn 1.26) e somente encontramos nossa verdadeira autoimagem quando refletimos a glória do caráter de Deus. Sem esse ponto de referência, não haverá o que refletir senão traços de lembranças às vezes desejadas ás vezes suprimidas às vezes inventadas.
                As perspectivas que a raça humana tem de si mesmo e do mundo ainda são reflexos das mesmas carências que Adão e Eva perceberam no dia depois da Queda. O apologeta Van Til ilustra a impossibilidade de o homem não regenerado perceber a glória da imagem de Deus com a observação de um retrato. Para ele, o que existe, é um negativo de fotografia, de cabeça para baixo, feito em pedaços e, depois, as peças juntadas sem ajuda do original. Essa decadência do pecado é crescentemente continuada. Ela torce as perspectivas e embaça o retrato. Houve um tempo, disse Francis Schaeffer, em que a admoestação “comporte-se” teve um sentido claro. Hoje, se perguntaria: “comportar-se como?” Isso, porque ocorreu mais uma mudança radical na maneira como as pessoas pensam e agem, Em todos os lugares (casa, rua, mídia, escola, comércio, e governo) nós somos assediados por uma interpretação pluralista (o politicamente correto, o direito social, a nova moral, etc.) e por uma prática individualista (meu direito, meu gosto, meu corpo, meu tempo, etc.). No horizonte da pessoa que segue a perspectiva deste mundo, ambos os pontos de fuga são controlados por impulsos naturais (sobrevivência, poder, prazer etc.) e por tendências culturais (consumo desregrado, recompensa imediata, e daí em diante).
                Qual seria a linha mestra para o meu ou o seu retrato, à luz da Palavra de Deus? O sábio que disse que o coração do homem corresponde ao homem, também disse que como imagina em sua alma, assim ele é (Pv 23.7). A imagem e semelhança e de Deus é única água da vida na qual reconheceremos a nossa face verdadeira. Essa revelação do alto se alinha ao princípio bíblico da fé e prática, segundo a qual a crença do coração motiva os comportamentos. Noutras palavras, nós somos conforme imaginamos a Deus em nosso coração, e, a partir daí, todos os atos da alma finalizam nos atos do corpo a descrever quem somos.
                A autoimagem da pessoa sem Deus, e de muitos cristãos que vivem segundo a sabedoria deste mundo, reflete toda a sua confusão interior na incoerência entre o que diz e o que faz. Ela é estulta, isto é, é “sábia” aos seus próprios olhos, tentando refletir um “eu” falsificado. Como disse o Senhor Jesus:
São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas. Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas. Se, portanto, todo o teu corpo for luminoso, sem ter qualquer parte em trevas, será todo resplandecente como a candeia quando te ilumina em plena luz (Lucas 11.34-36).
                Graças a Deus, há a promessa: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios (Ef 5,14-15). A pessoa regenerada reflete uma imagem refeita à imagem de Jesus Cristo, como diz em 2 Coríntios 4.6: Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. É certo que, por enquanto, vemos esse tesouro em vasos de barro, mas é certo também o que é está escrito em 2Co 3.18: E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, fevereiro 28, 2017

QUANDO SE ROMPE O FIO


Nestes últimos tempos, vimos morrer vários amigos queridos, servos de Deus empenhados em sua obra. Às vezes, pensamos que farão falta e que jamais serão substituídos. Esquecemos que Deus não leva os seus filhos para o céu até que sua obra esteja completada na terra. Em conversa com queridos de longa data, lembrávamos que, na última vez em que estivemos juntos, em Brasília, a Gode estava junto. Ela viu minha luta com um fogão cuja porta de forno teimava em não ficar fechada e, no dia seguinte, mandou entregar em casa um fogão novo. Ela era assim—observava as necessidades do povo de Deus e, quando era algo que podia resolver, fazia isso com alegria, sem alarde, sem cerimônia, com muito amor! Ontem fez um ano que ela faleceu.
A última vez que vi Regina, amiga lá de B.H., foi numa formatura do Andrew Jumper. Exuberante, ela mostrava a alegria da música e dos netos. Certamente hoje canta no coral celestial.
Servos do Senhor, mais velhos, como Ary Veloso, nosso professor e encorajador do trabalho; outros, mais novos do que Wadislau e eu, que foram também seus alunos ou por ele estimulados ao ministério, como Carlos Osvaldo e Dídimo, Paulo Solonca,  foram ceifados antes de nós. Todos esses tiveram ministério impactante na igreja de Jesus Cristo em nossa terra. Vários presbíteros—com os quais Wadislau mais contava nas igrejas pelas quais passamos—morreram cedo: Adilson, Péricles, Filemon, Ortêncio. A maioria, devastada doenças com que conviviam por alguns anos. Alguns pensavam ter vencido totalmente a doença implacável, quando de repente ela voltou com força e os derrubou.
Fato é que, à medida que envelhecemos, alguns de nossos amigos e colegas também envelhecem, e alguns completam o número de seus anos. É triste quando alguém tem a vida ceifada por acidentes ou incidentes violentos. A vida é tênue. Está por um fio de prata. Erva seca e cai a flor.
O que “resta” depois dessa ceifa terrível aos olhos dos que não têm esperança, é, olhos dos que confiam no Senhor o cumprimento da esperança de estar com Cristo. Para todos, permanece a dor, pois a morte é o aguilhão do pecado.
Nessas experiências, há órfãos de pais, filhos, amigos — e de cônjuges. Este último, um estado comum a muitas pessoas, para o qual poucos se preparam: a viuvez.
A Bíblia conta que Tamar ficou viúva de um homem perverso, Er (Gn 38.7), e foi-lhe dado segundo casamento com Onã, que não quis prover descendência a seu irmão, e também morreu. O sogro, Judá, não querendo que seu filho, Sua, passasse pela mesma condenação de morte, negligenciou os direitos da nora viúva. Tamar tomou nas próprias mãos a justiça nessa circunstância adversa, concebendo, do sogro enganado, aos gêmeos, Perez e Zera. A despeito dos pecados de seus pais, Perez foi escolhido por Deus para ser antepassado de Jesus.
Outra viúva, que teve grande impacto no relato bíblico, foi a moabita Rute, cujo marido Malom morreu na terra de Moabe. A sogra, Noemi, achava que a viuvez era um castigo de Deus, amargura da vida, e, quando voltou a sua terra de origem, Belém, Rute insistiu em acompanhar para ajudá-la. Ali, além de pão, Rute encontrou um parente remidor, Boaz, que se tornou seu esposo, antepassado do rei Davi e finalmente de Jesus Cristo.
                Os retratos de viuvez, na Palavra de Deus, falam de perda e sofrimento, mas com a possibilidade de serem transformados em ganhos e glória, dependendo da intervenção de Deus na história dessas vidas. Deus ordenou a seu povo, especificamente, que jamais maltratasse ou desprezasse o órfão ou a viúva (Dt 10.18; Sl 68.5) — numa sociedade em que os homens dominavam os bens, muitas vezes ficavam desamparados.
Quando o profeta Elias enfrentou a seca e a fome, em Israel, Deus o sustentou por meio de uma viúva palestina, de Sarepta. Na casa mais pobre de um povo desprezado (1Rs 17.9 ; Lc 4.26) Deus abençoou o lar com fartura de óleo e farinha e devolveu a vida ao filho que morreu!
                No Novo Testamento, vemos que os viúvos não eram desprezados, as viúvas crentes eram cuidadas e honradas pela igreja que instalou diáconos por causa delas (At 6.1;1Tm 5.3). É cerne da religião verdadeira, visitar os órfãos e viúvas nas suas tribulações e guardar a si mesmo incontaminado do mundo (Tg 1.27). Paulo tinha sugestões: “Aos solteiros e viúvos digo que permaneçam como eu...”. Mas admitia que se casassem (1Co 7.8-17), especialmente às viúvas mais novas (1Tm 5.14).
                Foi o caso de Idelette, em meados dos anos 1500, cujo marido morreu na perseguição religiosa de seus tempos. Membros da igreja de João Calvino, o reformador solteirão viu nela uma mulher exemplar; casou com ela e teve-lhe muito amor, cuidando de seus filhos mesmo depois de Idelette ter falecido (1Tm 5.3). A Bíblia recomenda que viúvas jovens casem-se novamente.
Na vida cristã de nossos dias, é possível que enfrentemos desafios imprevistos que  jamais desejaríamos — e devemos passar por eles com sabedoria e gratidão no coração. É o caso de alguns viúvos e viúvas que conheço em Cristo (usarei pseudônimos daqui para frente). Margaret era casada com um líder cristão que despontava na política em seu estado, como foi Daniel na Babilônia. Ele morreu em acidente automobilístico, três quadras de sua casa, deixando filhos de seis e três anos. Alguns meses mais tarde, a menina de seis anos chegou para um moço solteiro de sua igreja e perguntou-lhe: Você não casa conosco e fica com mamãe para ajudar a nos criar? O amigo ficou surpreso com o pedido, mas, convivendo com a família, na igreja, viu que a mãe era uma mulher piedosa, além de bonita e inteligente. Acabaram se casando e formando um novo e bonito lar. Outra mulher que conheço ficou viúva quando ainda grávida da primeira filha. Seu jovem marido era líder nacional de mocidade e sua morte causou imenso impacto na igreja. Um irmão na fé casou-se com ela, assumindo não somente a viúva como também a filha que criou junto dela com os filhos que vieram a nascer desse enlace. Hoje é uma família cristã de valor para o corpo de Cristo.
                 Outro casal conhecido, que serve ao Senhor é composto de uma ex-viúva e um pastor que hoje é exemplo para milhares de casais pelo Brasil a fora.
                Quando a morte finda a vida comum, para o viúvo ou viúva  mais idosa, às vezes, é difícil pensar em um novo casamento. Poderá haver expectativas diversas, de novas uniões abençoadas ou estagnadas. Talvez seja difícil para a pessoa tenha vivido junto a alguém por trinta, quarenta anos, relacionar-se bem com outra. Se o casamento foi feliz e equilibrado, a pessoa viúva entrará num novo casamento com amor e disposição de fazer o bem ao cônjuge. Um viúvo conhecido disse que só casaria novamente se a pessoa aceitasse bem suas filhas, amasse o Reino de Deus e missões, e fosse generosa e desprendida das coisas materiais. Encontrou uma viúva de coração missionário e de disposição amável, e seu novo casamento será bênção como foi o primeiro. Outro, escolhendo somente com base na juventude e beleza, casou-se com alguém da idade dos filhos, sem experiência da vida cristã.
Uma nova esposa do tipo do primeiro exclamou: além de ganhar o fulano, ganhei nove netos! Que bênção! Ela vê a vida como dom de Deus e não conta as perdas passadas como sendo peso!
A liberdade em Cristo em relação ao novo casamento de viúvos é imensa, mas tem um porém: “se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor”. Os casados têm de cuidar dos interesses do outro acima dos seus, e os viúvos já têm histórico e bagagem de muita coisa. Será sempre loucura, para solteiros e viuvo0s casadouros, fazê-lo sem que o Senhor Jesus edifique o lar. Conheço um casal de ex-viúvos, ambos crentes em Jesus, que não deixaram as amarras da vida pregressa para se casarem e, nisso, não permaneceram na entrega e submissão ao Senhor Jesus. Ela não aceitava os filhos dele; ele queria manter em tudo o estilo de vida da falecida — o novo casamento foi cheio de problemas e indisposições. Um casamento no Senhor exige vida de quem está em Cristo ser nova criatura, não permitindo que as coisas velhas moldem e mofem a nova vida.
                Uma irmã amada era exemplar na paixão mútua d o casal. Ele morreu depois de intensa luta contra o câncer, e eu pensei que ela jamais se recuperaria da perda. Ela se encontrou com um velho amigo da família, o qual também havia perdido a esposa de forma trágica, e, em pouco tempo, casaram-se, e estão usufruindo juntamente os anos da maturidade. Têm a admiração e o amor dos filhos de seus casamentos anteriores, no respeito ao que tinham antes e na alegria quanto ao que têm agora, no Senhor.
                Lembro-me de Elizabeth Elliot, cujo primeiro marido foi morto pelos índios Auca, em 1956, quando ela era jovem missionária e mãe de menina pequenina. Casou-se, alguns anos depois, com outro pastor — só poderia casar com alguém que tivesse a mesma visão cristã, e viveram muitos anos juntos, ate que ele morreu. Novamente viúva, Elisabeth casou com mais um servo de Deus, que cuidou dela até ela morrer, no ano passado.
                Voltando aos amigos viúvos e viúvas que ficaram assim nos últimos anos, alguns já começam a despontar um novo relacionamento; outros se envolveram no trabalho missionário ou na vida com os netos ou pais idosos de modo que não tem espaço para outro cônjuge. Outros mais, não têm expectativas futuras bem claras. Fato é que cada caso é um caso. Não podemos dizer categoricamente: um novo casamento não deve ser procurado, nem que tem de ser procurado novo casamento. Cada pessoa é diferente e reage de maneira diferente ao que aconteceu em sua vida. O que une a todos é a cláusula “no Senhor”. No Senhor Jesus, a vida e a morte são dons preciosos, e podem ser experimentados para a glória do Senhor ou para a desonra própria e do nome Santo. O resultado de um é alegria para os seus filhos e para si mesmo. O resultado do outro, é o vazio e inglória para todos os envolvidos.
Sou grata a Deus por uma vida junto de meu marido há mais de 50 anos, e acho que esta será a única de minha existência. “O Senhor tem um plano para cada criatura”, e creio que esse foi o que ele traçou para mim; para outras pessoas, ele poderá conceder que experimentem a felicidade muitas vezes. Sou grata a Deus porque alguns de meus amigos que sofreram perdas aparentemente irreparáveis estão refazendo as suas vidas com novidade sobre as antigas experiências. Que Deus nos dê a graça de desenvolver nossa salvação com tremor e temor, quer vivamos ou morramos, sejamos do Senhor, que faz em nós tanto o querer quanto o realizar! (Fp 2.12-13).

Elizabeth Gomes