sábado, março 25, 2017

AUTOIMAGEM (estudo 1)


        Aplicações de conceitos bíblicos à ideia de autoimagem.
               
Relendo os meus poetas brasileiros preferidos, dei com um poema que, há alguns anos, soou-me belo, mas desesperado. Hoje, o Autorretrato de Mário Quintana fez-me pensar num texto de Salomão, no Eclesiastes bíblico. Coisa da nossa terra, “debaixo do sol”, tão na cara como um nariz. Os dois poetas não puderam se furtar ao anseio otimista nem à constatação pessimista da presente realidade. Veja o Quintana:
 No retrato que me faço
— traço a traço —
às vezes me pinto nuvem
às vezes me pinto árvore...
ás vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida em que busco
-- pouco a pouco --
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!
Diferente do Mário, o rei Salomão traceja, em Provérbios 27.19:
Como na água
o rosto corresponde ao rosto,
assim o coração do homem,
ao homem.
Fosse uma conversa levada num banco de praça e eu imaginaria a ironia do velho sábio de lá a sussurrar ao rei de cá: “É isso aí!”. Maior contraste, ainda, quando o rei Davi puxa o traço: O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que o praticam. O seu louvor permanece para sempre (Sl 111.10).  E quando Salomão, de novo, dá o laço: Quem é como o sábio?E quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem faz luzir o seu rosto, e muda-se a dureza de sua face (Ecl 8.1).
Dá para perceber que o tema de um autorretrato tem relação com os temas da sabedoria e da estultícia implicadas numa autointerpretação. Coisas como autoimagem, autoconceito, autoestima, e daí em diante, fazem parte do ideário humano. São palavras de especial riqueza e de variado sentido usadas para se descrever o pensamento e o sentimento de autoconsciência, noção de autoexistência, valoração própria, etc. Especialmente, elas apontam para uma relação singular entre uma observação mais alta ou mais baixa e as decorrentes interpretações que as pessoas fazem de si mesmas.
Ambas, a estultícia inerente às observações e interpretações das filosofias dos homens sem Deus, e a sabedoria de Deus revelada nas Escrituras, são concordes ao dizer que nós vivemos em um mundo imagens. Aristóteles usou o termo fantasia para se referir à capacidade humana de pensar por meio de imagens. Há um mundo de formatos que nos obrigam a pensar em algum tipo de imagem, até mesmo, no caso de ausência de visão física, ou de afantasia, quando excepcionalmente uma pessoa não consegue formar imagens mentais. Nossa mente é tomada por formas do próprio corpo, objetos de uso, geografia próxima, e daí em diante. De modo geral e normal, vivemos num mundo imaginado. Tanto percebemos imagens quanto nos comunicamos por meio de figuras de linguagem.
De fato, as imagens que fazemos e as que comunicamos são partes da nossa própria criação e formação. Somos motivados no coração pela maneira como vemos a Deus e, consequentemente, ao mundo e às pessoas. Nessa dependência, as maneiras pelas quais outros vêem a Deus, coisas e pessoas acabam condicionando os nossos atos mentais e comportamentais. Sempre imaginaremos nossos retratos como refletidos numa dessas duas águas, ou do alto como chuvas benditas ou de baixo como poças narcisistas. A Escritura bíblica fornece um princípio básico geral para a ciência e arte de imaginar, dizendo: Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra (Cl 3.2). Nessa linha, a Bíblia toma como certo que todo mundo pensa e que, em matéria de autoconsciência humana, há dois pontos de vista: um espiritual, verdadeiro, vindo “do alto”, e, outro, “terreno”, natural e biologicamente engendrado.
                O apóstolo Pedro, num risco definitivo, diz que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pd 1.20-21). Com isso, ele desenha uma linha do horizonte da observação humana, posicionando acima dela o ponto de fuga infinito, isto é, a revelação divina, e, abaixo dela o ponto de fuga da interpretação humana.
Aqui, aplicando o texto à ideia de autoimagem, apomos: quem nós somos somente encontra significado verdadeiro na revelação divina, vinda do alto. Nem o horizonte da perspectiva humana será o ponto de vista particular que elucida a observação que a pessoa faz de si mesma nem o ponto de fuga da natureza servirá de parâmetro para uma autoestima ou avaliação de si mesma. Assim, é mesmo uma loucura, achar que alguém se pinta ou se busca, ou cria coisas que um dia existirão, na ânsia de encontrar a sua eterna semelhança. Antes, a verdadeira sabedoria crê que há um ponto de fuga superior, revelado do alto, por Deus, como luz que ilumina os nossos olhos e o próprio mundo para que o interpretemos (cf. Jo 1.1-4) Sem esse ponto de fuga no infinito, no próprio Deus, o que restará é “um desenho de criança... corrigido por um louco”. É assim que a Palavra descreve: se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência (Tg 1.23-24).
                A maneira como os pontos de fuga da perspectiva são estabelecidos fornece uma ideia de autoimagem e uma ideia de mundo. A crença sobre Deus é sempre uma determinante da idéia que o observador tem de si mesmo, de mundo, e de seu semelhante.
Nicodemos (cf. Jo 3.1-18), o mestre “terreno” em busca de autenticação, ainda que tivesse uma vaga ideia da verdade (pois foi buscar a Jesus), tinha também uma disposição mental errada quanto à verdade (pois considerou somente o aspecto humano de Jesus). Ele ouviu do Filho de Deus e Filho do Homem que o paradigma da graça divina para autenticação do ser humano é o próprio Mestre vindo do alto. Ouviu ainda que, para ter uma autoimagem assertiva, a pessoa precisaria de uma regeneração espiritual. Ao contemplar a morte de Cristo na cruz, ela tomaria consciência de sua verdadeira natureza criada por Deus e de sua natureza decaída, e constataria o amor de Deus, o perdão dos pecados, e o poder de uma viva e nova natureza. De fato, o Senhor Jesus Cristo é o resplendor da glória e a expressão exata do ser de Deus (cf. Fp 1.3), e é a plena expressão do ser humano, o Autor de nossa Criação e o Autor de nossa salvação. Fomos criados à imagem de Deus (Gn 1.26) e somente encontramos nossa verdadeira autoimagem quando refletimos a glória do caráter de Deus. Sem esse ponto de referência, não haverá o que refletir senão traços de lembranças às vezes desejadas ás vezes suprimidas às vezes inventadas.
                As perspectivas que a raça humana tem de si mesmo e do mundo ainda são reflexos das mesmas carências que Adão e Eva perceberam no dia depois da Queda. O apologeta Van Til ilustra a impossibilidade de o homem não regenerado perceber a glória da imagem de Deus com a observação de um retrato. Para ele, o que existe, é um negativo de fotografia, de cabeça para baixo, feito em pedaços e, depois, as peças juntadas sem ajuda do original. Essa decadência do pecado é crescentemente continuada. Ela torce as perspectivas e embaça o retrato. Houve um tempo, disse Francis Schaeffer, em que a admoestação “comporte-se” teve um sentido claro. Hoje, se perguntaria: “comportar-se como?” Isso, porque ocorreu mais uma mudança radical na maneira como as pessoas pensam e agem, Em todos os lugares (casa, rua, mídia, escola, comércio, e governo) nós somos assediados por uma interpretação pluralista (o politicamente correto, o direito social, a nova moral, etc.) e por uma prática individualista (meu direito, meu gosto, meu corpo, meu tempo, etc.). No horizonte da pessoa que segue a perspectiva deste mundo, ambos os pontos de fuga são controlados por impulsos naturais (sobrevivência, poder, prazer etc.) e por tendências culturais (consumo desregrado, recompensa imediata, e daí em diante).
                Qual seria a linha mestra para o meu ou o seu retrato, à luz da Palavra de Deus? O sábio que disse que o coração do homem corresponde ao homem, também disse que como imagina em sua alma, assim ele é (Pv 23.7). A imagem e semelhança e de Deus é única água da vida na qual reconheceremos a nossa face verdadeira. Essa revelação do alto se alinha ao princípio bíblico da fé e prática, segundo a qual a crença do coração motiva os comportamentos. Noutras palavras, nós somos conforme imaginamos a Deus em nosso coração, e, a partir daí, todos os atos da alma finalizam nos atos do corpo a descrever quem somos.
                A autoimagem da pessoa sem Deus, e de muitos cristãos que vivem segundo a sabedoria deste mundo, reflete toda a sua confusão interior na incoerência entre o que diz e o que faz. Ela é estulta, isto é, é “sábia” aos seus próprios olhos, tentando refletir um “eu” falsificado. Como disse o Senhor Jesus:
São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas. Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas. Se, portanto, todo o teu corpo for luminoso, sem ter qualquer parte em trevas, será todo resplandecente como a candeia quando te ilumina em plena luz (Lucas 11.34-36).
                Graças a Deus, há a promessa: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios (Ef 5,14-15). A pessoa regenerada reflete uma imagem refeita à imagem de Jesus Cristo, como diz em 2 Coríntios 4.6: Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. É certo que, por enquanto, vemos esse tesouro em vasos de barro, mas é certo também o que é está escrito em 2Co 3.18: E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.

Wadislau Martins Gomes

terça-feira, fevereiro 28, 2017

QUANDO SE ROMPE O FIO


Nestes últimos tempos, vimos morrer vários amigos queridos, servos de Deus empenhados em sua obra. Às vezes, pensamos que farão falta e que jamais serão substituídos. Esquecemos que Deus não leva os seus filhos para o céu até que sua obra esteja completada na terra. Em conversa com queridos de longa data, lembrávamos que, na última vez em que estivemos juntos, em Brasília, a Gode estava junto. Ela viu minha luta com um fogão cuja porta de forno teimava em não ficar fechada e, no dia seguinte, mandou entregar em casa um fogão novo. Ela era assim—observava as necessidades do povo de Deus e, quando era algo que podia resolver, fazia isso com alegria, sem alarde, sem cerimônia, com muito amor! Ontem fez um ano que ela faleceu.
A última vez que vi Regina, amiga lá de B.H., foi numa formatura do Andrew Jumper. Exuberante, ela mostrava a alegria da música e dos netos. Certamente hoje canta no coral celestial.
Servos do Senhor, mais velhos, como Ary Veloso, nosso professor e encorajador do trabalho; outros, mais novos do que Wadislau e eu, que foram também seus alunos ou por ele estimulados ao ministério, como Carlos Osvaldo e Dídimo, Paulo Solonca,  foram ceifados antes de nós. Todos esses tiveram ministério impactante na igreja de Jesus Cristo em nossa terra. Vários presbíteros—com os quais Wadislau mais contava nas igrejas pelas quais passamos—morreram cedo: Adilson, Péricles, Filemon, Ortêncio. A maioria, devastada doenças com que conviviam por alguns anos. Alguns pensavam ter vencido totalmente a doença implacável, quando de repente ela voltou com força e os derrubou.
Fato é que, à medida que envelhecemos, alguns de nossos amigos e colegas também envelhecem, e alguns completam o número de seus anos. É triste quando alguém tem a vida ceifada por acidentes ou incidentes violentos. A vida é tênue. Está por um fio de prata. Erva seca e cai a flor.
O que “resta” depois dessa ceifa terrível aos olhos dos que não têm esperança, é, olhos dos que confiam no Senhor o cumprimento da esperança de estar com Cristo. Para todos, permanece a dor, pois a morte é o aguilhão do pecado.
Nessas experiências, há órfãos de pais, filhos, amigos — e de cônjuges. Este último, um estado comum a muitas pessoas, para o qual poucos se preparam: a viuvez.
A Bíblia conta que Tamar ficou viúva de um homem perverso, Er (Gn 38.7), e foi-lhe dado segundo casamento com Onã, que não quis prover descendência a seu irmão, e também morreu. O sogro, Judá, não querendo que seu filho, Sua, passasse pela mesma condenação de morte, negligenciou os direitos da nora viúva. Tamar tomou nas próprias mãos a justiça nessa circunstância adversa, concebendo, do sogro enganado, aos gêmeos, Perez e Zera. A despeito dos pecados de seus pais, Perez foi escolhido por Deus para ser antepassado de Jesus.
Outra viúva, que teve grande impacto no relato bíblico, foi a moabita Rute, cujo marido Malom morreu na terra de Moabe. A sogra, Noemi, achava que a viuvez era um castigo de Deus, amargura da vida, e, quando voltou a sua terra de origem, Belém, Rute insistiu em acompanhar para ajudá-la. Ali, além de pão, Rute encontrou um parente remidor, Boaz, que se tornou seu esposo, antepassado do rei Davi e finalmente de Jesus Cristo.
                Os retratos de viuvez, na Palavra de Deus, falam de perda e sofrimento, mas com a possibilidade de serem transformados em ganhos e glória, dependendo da intervenção de Deus na história dessas vidas. Deus ordenou a seu povo, especificamente, que jamais maltratasse ou desprezasse o órfão ou a viúva (Dt 10.18; Sl 68.5) — numa sociedade em que os homens dominavam os bens, muitas vezes ficavam desamparados.
Quando o profeta Elias enfrentou a seca e a fome, em Israel, Deus o sustentou por meio de uma viúva palestina, de Sarepta. Na casa mais pobre de um povo desprezado (1Rs 17.9 ; Lc 4.26) Deus abençoou o lar com fartura de óleo e farinha e devolveu a vida ao filho que morreu!
                No Novo Testamento, vemos que os viúvos não eram desprezados, as viúvas crentes eram cuidadas e honradas pela igreja que instalou diáconos por causa delas (At 6.1;1Tm 5.3). É cerne da religião verdadeira, visitar os órfãos e viúvas nas suas tribulações e guardar a si mesmo incontaminado do mundo (Tg 1.27). Paulo tinha sugestões: “Aos solteiros e viúvos digo que permaneçam como eu...”. Mas admitia que se casassem (1Co 7.8-17), especialmente às viúvas mais novas (1Tm 5.14).
                Foi o caso de Idelette, em meados dos anos 1500, cujo marido morreu na perseguição religiosa de seus tempos. Membros da igreja de João Calvino, o reformador solteirão viu nela uma mulher exemplar; casou com ela e teve-lhe muito amor, cuidando de seus filhos mesmo depois de Idelette ter falecido (1Tm 5.3). A Bíblia recomenda que viúvas jovens casem-se novamente.
Na vida cristã de nossos dias, é possível que enfrentemos desafios imprevistos que  jamais desejaríamos — e devemos passar por eles com sabedoria e gratidão no coração. É o caso de alguns viúvos e viúvas que conheço em Cristo (usarei pseudônimos daqui para frente). Margaret era casada com um líder cristão que despontava na política em seu estado, como foi Daniel na Babilônia. Ele morreu em acidente automobilístico, três quadras de sua casa, deixando filhos de seis e três anos. Alguns meses mais tarde, a menina de seis anos chegou para um moço solteiro de sua igreja e perguntou-lhe: Você não casa conosco e fica com mamãe para ajudar a nos criar? O amigo ficou surpreso com o pedido, mas, convivendo com a família, na igreja, viu que a mãe era uma mulher piedosa, além de bonita e inteligente. Acabaram se casando e formando um novo e bonito lar. Outra mulher que conheço ficou viúva quando ainda grávida da primeira filha. Seu jovem marido era líder nacional de mocidade e sua morte causou imenso impacto na igreja. Um irmão na fé casou-se com ela, assumindo não somente a viúva como também a filha que criou junto dela com os filhos que vieram a nascer desse enlace. Hoje é uma família cristã de valor para o corpo de Cristo.
                 Outro casal conhecido, que serve ao Senhor é composto de uma ex-viúva e um pastor que hoje é exemplo para milhares de casais pelo Brasil a fora.
                Quando a morte finda a vida comum, para o viúvo ou viúva  mais idosa, às vezes, é difícil pensar em um novo casamento. Poderá haver expectativas diversas, de novas uniões abençoadas ou estagnadas. Talvez seja difícil para a pessoa tenha vivido junto a alguém por trinta, quarenta anos, relacionar-se bem com outra. Se o casamento foi feliz e equilibrado, a pessoa viúva entrará num novo casamento com amor e disposição de fazer o bem ao cônjuge. Um viúvo conhecido disse que só casaria novamente se a pessoa aceitasse bem suas filhas, amasse o Reino de Deus e missões, e fosse generosa e desprendida das coisas materiais. Encontrou uma viúva de coração missionário e de disposição amável, e seu novo casamento será bênção como foi o primeiro. Outro, escolhendo somente com base na juventude e beleza, casou-se com alguém da idade dos filhos, sem experiência da vida cristã.
Uma nova esposa do tipo do primeiro exclamou: além de ganhar o fulano, ganhei nove netos! Que bênção! Ela vê a vida como dom de Deus e não conta as perdas passadas como sendo peso!
A liberdade em Cristo em relação ao novo casamento de viúvos é imensa, mas tem um porém: “se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor”. Os casados têm de cuidar dos interesses do outro acima dos seus, e os viúvos já têm histórico e bagagem de muita coisa. Será sempre loucura, para solteiros e viuvo0s casadouros, fazê-lo sem que o Senhor Jesus edifique o lar. Conheço um casal de ex-viúvos, ambos crentes em Jesus, que não deixaram as amarras da vida pregressa para se casarem e, nisso, não permaneceram na entrega e submissão ao Senhor Jesus. Ela não aceitava os filhos dele; ele queria manter em tudo o estilo de vida da falecida — o novo casamento foi cheio de problemas e indisposições. Um casamento no Senhor exige vida de quem está em Cristo ser nova criatura, não permitindo que as coisas velhas moldem e mofem a nova vida.
                Uma irmã amada era exemplar na paixão mútua d o casal. Ele morreu depois de intensa luta contra o câncer, e eu pensei que ela jamais se recuperaria da perda. Ela se encontrou com um velho amigo da família, o qual também havia perdido a esposa de forma trágica, e, em pouco tempo, casaram-se, e estão usufruindo juntamente os anos da maturidade. Têm a admiração e o amor dos filhos de seus casamentos anteriores, no respeito ao que tinham antes e na alegria quanto ao que têm agora, no Senhor.
                Lembro-me de Elizabeth Elliot, cujo primeiro marido foi morto pelos índios Auca, em 1956, quando ela era jovem missionária e mãe de menina pequenina. Casou-se, alguns anos depois, com outro pastor — só poderia casar com alguém que tivesse a mesma visão cristã, e viveram muitos anos juntos, ate que ele morreu. Novamente viúva, Elisabeth casou com mais um servo de Deus, que cuidou dela até ela morrer, no ano passado.
                Voltando aos amigos viúvos e viúvas que ficaram assim nos últimos anos, alguns já começam a despontar um novo relacionamento; outros se envolveram no trabalho missionário ou na vida com os netos ou pais idosos de modo que não tem espaço para outro cônjuge. Outros mais, não têm expectativas futuras bem claras. Fato é que cada caso é um caso. Não podemos dizer categoricamente: um novo casamento não deve ser procurado, nem que tem de ser procurado novo casamento. Cada pessoa é diferente e reage de maneira diferente ao que aconteceu em sua vida. O que une a todos é a cláusula “no Senhor”. No Senhor Jesus, a vida e a morte são dons preciosos, e podem ser experimentados para a glória do Senhor ou para a desonra própria e do nome Santo. O resultado de um é alegria para os seus filhos e para si mesmo. O resultado do outro, é o vazio e inglória para todos os envolvidos.
Sou grata a Deus por uma vida junto de meu marido há mais de 50 anos, e acho que esta será a única de minha existência. “O Senhor tem um plano para cada criatura”, e creio que esse foi o que ele traçou para mim; para outras pessoas, ele poderá conceder que experimentem a felicidade muitas vezes. Sou grata a Deus porque alguns de meus amigos que sofreram perdas aparentemente irreparáveis estão refazendo as suas vidas com novidade sobre as antigas experiências. Que Deus nos dê a graça de desenvolver nossa salvação com tremor e temor, quer vivamos ou morramos, sejamos do Senhor, que faz em nós tanto o querer quanto o realizar! (Fp 2.12-13).

Elizabeth Gomes

sexta-feira, fevereiro 17, 2017

POR QUE VALORIZAR A HISTÓRIA?



O coração do sábio discernirá o tempo e o modo (Eclesiastes 8.5).

O passado não é assim tão remoto
Um pastor perguntou à classe de escola dominical há quanto tempo o mundo existia. Um diácono respondeu categórico: “502 anos — comemoramos os quinhentos anos já fazem dois anos”.  Um candidato ao ministério, referindo-se a um pastor brasileiro, professor num seminário, comentou: “Ele é fera mesmo. Foi aluno do próprio Calvino” ­– pensando que seu professor tivesse estudado poimênica aos pés do grande reformador, quando ele se referia a um professor e clínico atual.
Se você tem menos de trinta anos, não terá participado do protesto Diretas Já. Se está na casa dos vinte, será que chegou a marchar pelo impeachment do Collor? Você se lembra onde estava quando Kennedy foi assassinado?  Se tiver mais de quarenta anos, talvez tenha imagens indeléveis em preto no branco e com matizes de cinza, da realidade do desmoronamento do pretenso Camelot moderno — o choque da vulnerabilidade dos mais poderosos do mundo. Outra imagem inesquecível transmitida pela televisão foi do salto para a humanidade que foi o primeiro passo do homem na lua. Lembro-me daquele dia: um senhor na padaria onde fomos comprar leite afirmou categórico: “Isso é tudo propaganda americana. Montagem. Ninguém jamais irá à lua”.
Você se lembra dos dias de agonia com a doença e morte de Tancredo Neves, de quem pensávamos ser o primeiro presidente não militar desde a revolução de 64?
Meu marido contava a jovens que, antes de sua conversão, jovem, fora preso na revolução militarista e, da cadeia, ouviu um conhecido pastor declarar que “agora acabou a luta contra o comunismo porque eles estão todos presos onde deviam estar”. Os jovens o olharam como se fosse um ocorrido de outro século — e era de vinte anos antes no mesmo século vinte.
Ele mesmo conta de conversas com seu pai que descrevia a ida a São Paulo para participar da Revolução Constitucionalista de 34. Parecia-lhe tão distante no tempo... hoje conversamos com jovens sobre momentos históricos de que participamos e eles nos olham como se fôssemos de outro planeta.
Meu avô contou-me que o seu pai, quando jovem, apanhou do pai dele quando afirmou que um tal de Alexander Graham Bell havia inventado um aparelho com o qual se podia falar com pessoas distantes a mais de um quilômetro. “Isso é mentira, porque só Deus fala à distância”.

Lembranças pessoais
Recordo-me bem de um dia, em agosto de 1954, quando meus pais, eu aos seis anos de idade (está vendo — agora vocês sabem!) e minha irmã de três, chegamos ao Rio de Janeiro depois de um período de férias nos Estados Unidos. O navio atracara no Rio para os turistas passarem o dia antes de prosseguirem para Santos, o destino final. Minha irmãzinha se perdeu no centro de Copacabana e o taxista não queria voltar com meu pai para procurá-la porque o trânsito estava desgovernado: era o dia em que Presidente Vargas suicidou.
As manchetes sobre gente morta a tiros ao tentar atravessar o muro de Berlim que rasgava a cidade em Oriente e Ocidente ficaram gravadas em minha mente impressionável de doze anos. Agora já nos esquecemos dos poucos anos que passaram desde que o muro da vergonha foi despedaçado e pedaços dele vendidos como lembrança para turistas na Alemanha do final do século passado.
Eu tinha treze anos, e era só uma formiguinha entre as milhares de pessoas, na praça dos três poderes, que assistiam Juscelino Kubitschek inaugurar Brasília, a capital da esperança. Na semana anterior, minha irmã tinha acompanhado papai em visita ao presidente. Guardamos até hoje a foto em que a encantadora menina foi beijada pela primeira dama (nossa rainha), Dona Sara Kubitschek.
Vivi um ano nos Estados Unidos quando se faziam treinamentos, na pacata cidade em que vivíamos, para nos conduzir a abrigos antibombas em caso de ataque nuclear. Não se sabia, nunca, até depois, se era apenas um ensaio ou o acontecimento de fato. O pavor que se tinha do domínio comunista no mundo era disseminado pelo “mundo livre”. Hoje, o mundo livre viu ruir o poder da União Soviética, mas vive com pavor do terrorismo de grupos extremistas muçulmanos. Quem conhece gente que foi tragada pelas torres do World Trade Center em onze de setembro sabe que não existe lugar seguro no mundo. Lembra-se de onde você estava quando ouviu a notícia?

Alienados no presente
                Hoje, a maioria das pessoas não tem noção de história — nem as da igreja nem as do mundo. Igrejas chamadas históricas oscilam com os tempos. Igrejas pentecostais cuja história tem menos de cem anos estão mais tradicionais. Igrejas da terceira onda têm seus “apóstolos” que, em vez de fundamentar a igreja invisível de Cristo, gastam 70 % de seu tempo na televisão pedindo dinheiro e descrevendo as bênçãos da prosperidade. Abundam as afirmativas amalucadas de desconhecedores de história.
Ouvi alguém afirmar que Calvino era um déspota assassino, sem saber que o reformador sequer fazia parte do conselho da cidade nem a razão do seu apoio. Essa pessoa se agarrava a chavões tendenciosos e ignorava por completo o reavivamento que seguiu a Reforma Protestante, fazendo com que, em um ano, a igreja de Genebra abrisse mais de cem novas igrejas e no segundo ano, mais de mil — junto a uma transformação social que incluía o abrigo e sustento pessoal de centenas de pessoas desprovidas de seus bens e familiares (essa era a estirpe dos reformadores!). Voltaram à França com uma visão holística do evangelho perto da qual nosso evangelicalismo xôxo e antropocêntrico empalidece.
“Os que não conseguem se lembrar do passado estão condenados a repeti-lo”, disse o pensador George Santayana.[1]
Em vez da visão de remir o tempo conforme Efésios 5.16, o tempo presente é visto como a hora para se aproveitar ao máximo as oportunidades — para si mesmo! Queremos mais tempo de lazer, tempo para nós mesmos, tempo para investir na pessoa mais importante de minha vida — eu! ­– esquecidos do que disse Paulo sobre gastar-se e deixar-se gastar “em prol das vossas almas, ainda que mais vos amando seja eu menos amado” (2Co 12.15).
Por meio dos livros e de comentários da televisão, somos comprovadamente crentes quando temos sucesso nos negócios, no amor, na vida. Um Jó sentado no pó, destituído de bens, família e saúde, ou um Moisés por quarenta anos pastoreando rebanhos do sogro no deserto antes de gastar mais quarenta anos dando voltas sem terra num deserto ainda mais vasto, conduzindo um povo resmungão, criando nele uma ética de vida para a eternidade, ou um Paulo a quem “Demas me abandonou por amar mais o presente século” — são alheios aos nossos anseios.
 Cristo afirmou que “no mundo tereis aflições” e passou por um tribunal infame e uma morte vergonhosa, abandonado pelos que o seguiram durante três anos de ministério — todas essas histórias “negativas” são estranhas à visão de êxito na vida cristã, proposta pela mídia e pelos púlpitos evangélicos.
Perdemos a visão do tempo presente, achando que somos donos de nosso próprio tempo e podemos gastá-lo em proveito pessoal. Perdemos a visão da atualidade em que fomos inseridos, do tempo que se chama hoje e que amanhã, não volta.
                Diz o educador cristão Robert Pazmiño: “O cristão não escolheu o tempo para sua jornada histórica, mas estar inserido em determinado tempo histórico requer aprendizado do passado e viver no presente tendo em vista o futuro de Deus”. [2]
Sem as raízes do passado, sem saber onde pisamos na atualidade, é impossível que tenhamos uma visão acertada do futuro. Esvoaçamos como borboletas que se agitam e pousam sobre de montes de esterco, em vez de flores, sem jamais alçar com asas como de águias que voam sem fadiga.
A Bíblia começa com uma declaração que engloba tempo, espaço e matéria: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1) e o evangelho se resume na entrada do Deus infinito na história da humanidade finita, dando-nos eternidade de glória: E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como a do unigênito do Pai (João 1.14), na cruz e na ressurreição. A pregação do Evangelho de Paulo incluiu uma visão do poder de Deus na história: “de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação” (Atos 17. 26). Como não prestar atenção à história de nossa fé, à história de nós mesmos, e à inserção do Deus que fala e age dentro da história humana para nos proporcionar apoios sólidos na terra e asas largas e fortes para vôos mais altos?!
Elizabeth Gomes




[1] George Santayana, The Life of Reason or the Phases of Human Progress, vol I, p.284, citado por Millard J. Erickson em The Postmodern World (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 2002), p. 1.
[2] Robert W. Pazmiño, Questões Fundamentais de Educação Cristã (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 2005).

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

COISAS DE SOGRA



Estive pensando sobre o que me leva a escrever. Sem dúvida, idéias e pessoas mexem comigo. Provocam, instigam, fazem pensar e ruminar as coisas. Conduzem para longe e cavam fundo. Idéias podem ser boas ou más, inteligentes ou insossas, mas uma idéia sempre atual e válida é a questão de relacionamentos.

Já os relacionamentos são intercâmbios entre as pessoas, e nasceram com idéias de amizade e bem-querer. Vivemos e nos movemos pelos relacionamentos com pessoas. A Pessoa de Deus – nele nos movemos e existimos, porque somos dele (At 17.28) – norteia e dá razão a todos os demais relacionamentos, sejam grandes ou pequenos. Se o relacionamento com Deus for equilibrado a ponto de vivermos para ele, e simultaneamente desequilibrado a ponto de ELE ser tudo – o começo, o fim e o meio – segue que nossos relacionamentos interpessoais também imitarão aquele que temos com o Criador.

De menina, eu queria me dar bem com as pessoas. Estar de bem, ser aceita e admirada. Isso me levou às alturas e, muitas vezes, fez-me descer ao fundo do poço. Outro dia, estive pensando numa pessoa que caracterizou seus relacionamentos como Amarga. Estava lendo (e bebendo, ao traduzir) o livro de John Piper, Doce e amarga providência – revendo a história de Rute (publicação da Hagnos). Três mil anos e ainda atual, a singela história trata de relacionamentos comuns e ações totalmente incomuns, singulares. A soberana providência divina permeia cada linha desta história, e provoca na gente um gosto de “quero mais”. Daí, minha nora Márcia me instigou:

– Por que você não escreve sobre o relacionamento de sogra e noras?

Minhas noras fazem dessas coisas. As duas estão entre minhas melhores amigas, e são as com quem sempre tenho bons papos. Pudera – são minhas vizinhas mais próximas, minhas confidentes, minhas motoristas. Meu genro também é um grande amigo, mas mora longe, e como sou mulher, e obviamente elas também pertencem ao gênero feminino, acatei a idéia.

Quando me casei aos dezoito anos, Deus me deu sogros extraordinários. Os pais do Lau me adotaram e apoiaram, e eu os assumi como a Rute da Bíblia. No caso da antepassada do rei Davi e do Rei dos Reis que viria de sua estirpe, a nora é que era a mulher de valor (Não insista que eu deixe você sozinha: teu Deus será meu Deus). Na história da Charles que virou Gomes, os “velhos” Wadislau e Eulina demonstraram a graça de Jesus em tudo que fizeram por mim.  Sem jogar, ganhei na loteria ao ganhar novos pais!

Contudo, Lau explica aos casais que grande porcentagem dos problemas entre casais – jovens ou mais maduros – se deve aos relacionamentos com sogros. As clássicas piadas são constantes na cultura e no cotidiano, e carregam mais que pitadas de verdade.

– O que é que você quer que eu diga, Márcia? O fato de que meus filhos fizeram escolhas nobres acima de qualquer nora ou genro que nós merecêssemos?

Quando as vizinhas de Noemi parabenizaram a antes falida e amargurada solitária pelo nascimento do neto, disseram:

Seja o Senhor bendito, que não deixou, hoje, de te dar um neto que será teu resgatador, e seja afamado em Israel o nome deste. Ele será restaurador da tua vida e consolador da tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos (Rute 4.14).

Meus netos não são a única razão pela qual as noras são preciosas (se bem que netos e noras nos dão muito orgulho e renovam a juventude). Os netos não são resgatadores no sentido de parente remidor da trama de Rute – não são eles que restauram nossa vida e nos consolam – quem o faz é o Descendente de Rute, Jesus Cristo – o Supremo e Único Remidor. Nós somos abençoados por ter filhos saudáveis, homens e mulher de Deus – não como os falecidos filhos de Noemi – e assim, não teríamos necessidade de uma “nora melhor do que sete filhos”. Contudo, pela abundante, exagerada e pródiga graça divina, tenho duas noras e um genro tão bons quanto os lendários sete. Aí, fazendo as contas, é como se tivéssemos vinte e um filhos além das três flechas na nossa aljava – mas que exagero!

            Não tenho espaço para discorrer sobre os segredos do bom relacionamento entre sogros, noras e genros, nem cunhados ou irmãos (você já leu meu livro Irmãos: cúmplices e rivais em aliança, da Cultura Cristã?). No entanto, quero destacar três características que fizeram com que meus sogros me abençoassem no relacionamento que desenvolvemos até a morte de cada um – e que quero imitar.

1)      Aceitaram-me como sou, não tentando mudar meus hábitos ou jeito. Isso foi um imenso desafio, pois eu vim de outra cultura e muito do meu jeito era contrário ao jeito deles pensar ou fazer. Uma vez que Lau declarasse ser eu a sua mulher para toda a vida, eles me acataram, e não fizeram diferença entre seus filhos e eu mesma.

2)       Ajudavam sem cobrar juros. Conheço muitos pais que ajudam os filhos, mas esperam algo em troca: reconhecimento, atendimento imediato, que façamos as coisas do seu jeito. Dão presentes “com cordas amarradas”. Não “Seu” Wadislau e Dona Eulina. Quando nos casamos, ainda estávamos no seminário, e eles nos ajudaram no que podiam – sacrificando até o que não podiam. Mas não puseram nada “na conta”.

3)      Respeitavam o casal jovem e inexperiente e davam espaço para nossos erros, sem cobranças. Serviam ao Senhor, e viam os filhos como servos do Senhor – com o respeito de Filhos do Rei dos Reis, e a humildade do menor dos servos.

Ah, norinhas queridas – quisera imitar meus sogros sempre! Sou grata porque não é uma ogra que vocês têm de homenagear, mas uma mãe-na-lei, uma irmã amiga, como o nome: Amiga, da moabita que entrou na linhagem de Jesus.

Elizabeth Gomes

domingo, janeiro 22, 2017

O QUE VOCÊ VÊ É O QUE VOCÊ LEVA

Lenda grega de Narciso

O acrônimo WYSIWYG, da expressão inglesa “what you see is what you get” (o que você vê é o que você obtém), é usado na computação para se referir à representação imediata da imagem gráfica e o resultado final. O dito é verdadeiro em relação a nós mesmos. Dá vergonha de dizer isso, mas o que somos tá na cara e é impossivel de ser evitado. Todos os dias, em todos os meus dias, tento disfarçar os desejos, intenções e atos do meu coração. Isso me faz lembrar de outra expressão usada por linha de avaliação de traços de personalidade, tomada de empréstimo aos mágicos de palco: “now you see me now you don’t” (agora você me vê, agora não). Esta diz respeito ao comportamento dúplice de pessoas que prometem muito e não estão prontas a cumprir ou que repetidamente mostram uma mão enquanto escondem a outra. O fato é que, pelo verso ou pelo avesso, sempre me dou a conhecer. Se, às vezes, parece que sou bem sucedido em minhas estratégias, acabo escravo do engano e do autoengano (cf. Tg 1.17-27). Estou sempre a descoberto aos olhos críticos mais aguçados.

Pense nas palavras da Escritura: Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim, o coração do homem, ao homem, e Até a criança se dá a conhecer pelas suas ações, se o que faz é puro e reto (Pv 20.11; 27.19). Elas nos permitem considerar que quando as nossas palavras e ações forem puras e retas, a sinceridade do coração transparecerá na admissão de nossa fraqueza e dependência da graça de Deus. Se, porém, as nossas palavras e atos forem uma cortina de fumaça para acobertar a feiúra da impureza moral, dos valores temporais errados, e da amargura incontida (cf. Hb 12.14-17), isso também transparecerá.

De nada adiantará sistematicamente evitar certos assuntos ou exageradamente abordar certos temas, pois isso também será evidência do mal que abrigamos no peito—um mal chamado hipocrisia! O próprio Senhor Jesus foi quem disse isso, recordando as palavras de Isaías: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens (Mt 15.8-9; cf. Is 29.13). Hipócritas!—chamou. O Senhor se referia ao requerimento farisaico do ato externo da lavagem de mão sem a correspondência interna da purificação da alma. Ouvi e entendei—disse ele—não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o homem ... o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem (Mt 15.10b-11).
O que fazer? Deixarmo-nos levar pela sátira do vício, como fez Gregório de Matos, o “boca do inferno”?
De que pode servir, calar, quem cala, / Nunca se há de falar, o que se sente? /  Sempre se há de sentir, o que se fala?  ...  Se souberas falar, também falaras, / Também satirizaras, se souberas, / E se foras Poeta, poetizaras. / A ignorância dos homens destas eras / Sisudos faz ser uns, outros prudentes, / Que a mudez canoniza bestas feras. / Há bons, por não poder ser insolentes, / Outros há comedidos de medrosos, / Não mordem outros não, por não ter dentes. / Quantos há que os telhados têm vidrosos, / E deixam de atirar sua pedrada / De sua mesma telha receosos. / Uma só natureza nos foi dada: / Não criou Deus os naturais diversos, / Um só Adão formou, e esse de nada. / Todos somos ruins, todos perversos, / Só nos distingue o vício, e a virtude, / De que uns são comensais outros adversos. / Quem maior a tiver, do que eu ter pude, / Esse só me censure, esse me note, / calem-se os mais, chitom, e haja saúde.”

Longe de nós tamanho cinismo! Mas que o olho crítico da boca do inferno está aí está mesmo. Então, o que fazer? Haverá uma maneira de superar a nossa natureza decaída e alcançar os altos para os quais fomos alcançados pela graça de Deus? Certamente, sim. A própria graça que nos alcançou—Jesus Cristo—é o caminho, a verdade, e a vida (cf. Jo 14.6) a nos despojar de nossa autoimagem artifical e nos transpostar para o conhecimento verdadeiro de quem é Deus e quem somos nós. O apóstolo Paulo fala sobre essa esperança tanto em termos presentes como em termos futuros:
Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós; e Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido (2Co 4.6-7; 1Co 13.12).

Entre o agora e o então, Tiago nos admoesta a cuidar da boca, impedindo a língua de dar vazão à sua natureza decaída, com ela pretendendo bendizer a Deus enquanto amaldiçoamos o homem. De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim (Tg 3.10). Isso mesmo também ocorre quando falamos sobre a graça de Deus a pessoas que já são salvas ao mesmo tempo em que as sobrecarregamos com culpa e medo. Ao impenitente fica bem a exposição do seu pecado; ao arrependido, cobre-lhe o sangue do Senhor Jesus e as admoetações da graça. Por isso mesmo, Tiago insta, dizendo que não adianta mostrar-se furioso apenas contra o pecado dos outros, Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus. A chave para a coerência de vida baseada na justificação em Cristo, diz ele, está no despojamento da impureza e do acúmulo de maldade, acolhendo
com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma. Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. Mas aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar (Tg 1.19-25).  

Em tudo o que realizar? Prosperidade evangelicalista? Prosperidade que o ladrão rouba, a traça corroe, e o olho arguto do acusador percebe e critica? Ou a realização da vontade de Deus, cheia de amor, plena de misericórdia? Quem nos fornece o ensino, com humildade, sinceridade, e sabedoria, é o rei Davi, o escolhido que rogou a Deus que lhe sondasse o coração, o homem que confessou seu pecado, e o crente que confiou no Redentor:
A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos. O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos. São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos. Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa. Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão. As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu! (Sl 19.7-14.)

Wadislau Martins Gomes

segunda-feira, janeiro 16, 2017

A TENDA VERMELHA


     A leitura sobre as famílias iniciais de Gênesis certamente não gera parâmetros para a família cristã ideal—nem de dois, três mil anos antes de Cristo nem de dois mil anos da era cristã. Alguns anos atrás, comecei a pensar mais sobre as famílias patriarcais da Bíblia e a relação deles com nossas famílias atuais
     Fui convidada para falar em retiro de mulheres de uma igreja presbiteriana de Anápolis, e o germe de meu livro “Irmãos: cúmplices e rivais em aliança” foi plantado. Repeti alguns aspectos do estudo de “irmãos” em acampamento para jovens da Igreja Presbiteriana de Brasília. Em vez de repetir as mesmas histórias de vida cristã familiar segundo o plano divino, observava que nossas histórias familiares são cheias de conflitos e carências—e vinham sendo assim não obstante possuirmos a Palavra de Deus e mestres que a ensinam com integridade. A Editora Cultura Cristã publicou meu livro sobre o assunto em 2008, e tem havido limitado mas constante interesse no assunto.
     O livro parâmetro de Moisés, por sua vez, conta que os primeiros irmãos tinham conflito de perspectivas e interesses: enquanto Caim queria produzir da terra e desfazer pelos próprios esforços a maldição do cultivo, Abel gerenciava o pastoreio e oferecia de seu próprio rebanho símbolo daquilo que constata que tudo vem de Deus e nada conseguimos sem seu amparo. A inveja e o ódio geraram o primeiro assassinato—que. em vez de eliminar a rivalidade, faz com que o perpetrador continue de semblante caído e o sangue da vítima continue clamando ainda hoje.  A multiplicação da maldade continua, perpassando mesmo os que foram salvos na arca: filhos de Noé, tendo oportunidade do re-começo de toda a civilização, ainda geram maldição, servidão e domínio no incidente do “descobrimento” da nudez do pai, e depois, ao edificar a torre da grandeza, são espalhados pela terra numa total descomunicação da fala única.
     Os anos vão passando e as histórias vão somando: isolamento e solidão, separação e novas alianças, esterilidade, tentativas de manipulação para se conseguir os ideais prometidos por Deus—pacto e promessas de quem é amigo de Deus versus os reis e deuses das tribos dos homens. Eram violentos os tempos de Isaque e Ismael, de Esaú e Jacó, dos filhos das quatro mulheres do mesmo patriarca e de suas vidas desregradas. Mas sempre o fio de redenção e graça perpassa a todos, e as promessas são de que através dessa família disfuncional chegará um dia quando o Sar Shalom trará verdadeira coesão, unidade em meio à diversidade,
caráter em meio ao caos de personalidades egoístas e idólatras. A história compactada da família escolhida para servir a Yahweh não segue o enredo de escolas dominicais protestantes do século XIX, XX ou XXI—seria até mesmo censurada por elas. Mas tem características de redenção realista, de graça a preço de sangue, de perdão sobre-humano diante de pecados sub-humanos, carnais, terrenos, demoníacos. Gênesis é fascinante, porque por mais que as histórias nos pareçam exageradas, fantásticas, além do que suportaríamos, são histórias de gente como nós: seres humanos criados por Deus para glória, emaranhados por afetos idólatras que minam a identidade gloriosa e solapam a integridade com a qual fomos criados.
     Não tem como acrescentar nem diminuir a grandeza da história bíblica—não podemos nem ousamos fazê-lo—mas como contadora de histórias, queria relatar as estórias dos irmãos da Bíblia para aplicar a teologia bíblica à prática cotidiana, daí o livro sobre irmãos.
     Enquanto trabalhava o texto, descobri um livro contando a história dos mesmos patriarcas da boca de Dina, a filha de Jacó cujo marido, o príncipe siquemita Hamor, foi assassinado por seus irmãos Simeão e Levi para vingar ela ter sido por ele desvirtuada. Uma hábil autora feminista de nossa era, Anita Diamant, reconta a história das mulheres dos patriarcas—mães, filhas, esposas, concubinas, amantes, amigas, sogras e noras—um emaranhado de relacionamentos de cumplicidade e rivalidade—nascendo, vivendo, morrendo debaixo de uma tenda vermelha, aquela em que era proibida a entrada de homens por ser para o isolamento da impureza feminina.
     Diamant certamente pesquisou bem a história da civilização inicial do povo de Israel e dos clãs circunvizinhos, bem como o Egito que já era potência mundial, e a Caldéia, de onde saíra Abrão. O livro é muito bem escrito, com profundidade psicológica, criativo, cheio de imaginação. O tipo de livro que eu invejo e desejaria produzir pela beleza e realidade de outra era espelhando a nossa. Recentemente, vi uma versão cinematográfica desse livro, e não pude deixar de rir e chorar com as histórias de Rebeca, Raquel, Lia, remetendo a Sara e Hagar, com a flor ferida de Diná a percorrer toda a história. A liberdade de criar histórias imanginando as partes em que a Bíblia nada afirma é válida e possível (Diná ter se tornado parteira, ido para o Egito antes de José e muito antes da família toda de Jacó ir habitar em Gósen, entre outras). Mas havia dois aspectos em que Diamant ignorou, quando não violentou, a narração bíblica:
1)      A ausência da aliança com Deus. Nada se fala das promessas a Abraão de que nele seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12) nem da reafirmação muitas vezes do pacto. As guerras, alianças, e contatos com os reis da época, culminando com a vinda e bênção de Melquisedeque, também são completamente ignoradas. Não consta, para Diamant, a luta de Jacó no vau de Jaboque, nem mesmo ele ter ficado coxo, a visão de Peniel, a mudança do nome e o restabelecimento do pacto. Todas as estórias sobre Jacó e seus filhos são humanas, terreais, sem foco no eterno. Claro que quando se condensa uma história que perpassa várias gerações, tem de haver uma seleção de narrativas, e mesmo no livro de Moisés de Gênesis sabemos que muito aconteceu que não foi contado. Mas à autora atual não parece haver nenhuma ação divina ou sobrenatural: tudo que aconteceu era sobre a terra inóspita de Canaã, sem pacto, promessa ou relação da parte dele com Deus.
2)      O segundo aspecto gritante na história da tenda vermelha é ter a narradora colocado como positiva a importância da idolatria de Raquel e Lia e suas colegas, e mesmo voltar ao passado de Rebeca e Sara como perpetradoras do feminino que se adore. Gênesis conta que Raquel roubou os ídolos de seu pai Labão (Gn 31.34-35), não como algo bom, mas erro crasso—ao contrário, a “tenda vermelha” glorifica a idolatria como meio de as mulheres contarem suas histórias e lidarem com sua existência entre sombras e luzes. Exatamente como o feminismo, hoje, procura nos ídolos do lar (deuses sob meu controle) e dos altos (deuses das coisas fora de meu controle) uma explicação para a existência e as carências humanas.              Claro que não podemos exigir que uma escritora descrente tenha uma visão acertada da idolatria—mas este é um aspecto em que a história pé no chão de uma excelente escritora não tem resposta como é para nós que cremos que Deus é o Deus dos altos e santos lugares, e também do profundo do ventre e do coração.
     Queria que nós mulheres cristãs, que escrevemos como para tocar cérebro, vísceras e afetos dos leitores, tivéssemos a acuidade e sensibilidade de grandes autoras descrentes—mas com a fé de mulheres “como a própria Sara que recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (Hb 11.11); “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias (Hb 11.31). E em geral, “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos (Hb 11.35).
     Para não nos fatigarmos ou desmaiarmos em nossa alma, teremos de nos livrar dos laços idólatras de nossa cultura passada, presente ou futura: “desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus” (Hb 12.1-2). A Palavra única, perfeita e inerrante de Deus estabelece o parâmetro e permite-nos criatividade, tal como disse Bill Edgar: a arte cristã é como o jazz, o qual requer liberdade dentro da forma.
     A tenda vermelha me lembra outra tenda: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipontente descansará” (Sl 91) a canópia sagrada pelo sangue do Cordeiro derramado por nós.

Elizabeth Gomes

quarta-feira, janeiro 04, 2017



Um tanto sombria, uma recente postagem foi sobre o peso do Natal, e eu queria escrever algo mais animador e leve para começar o ano de 2017. Como Maria na antiguidade, eu meditava muitas coisas no coração, e as revirava na cabeça com coceira de proclamar a todos quantos quisessem ouvir, ainda que não fosse voz de anjos ou profetas. Também como Maria da antiguidade, eu não tinha acesso a computador nem chamado para proclamação pública, e apenas lembrava com gratidão os muitos profetas que me antecederam, acompanham e sucedem na caminhada: meu pai, meu companheiro de vida e marido para todos os dias, meus filhos e genro – todos pastores – e os netos que nos alegram porque andam na verdade em amor. Começo o ano novo com profunda gratidão e igual percepção de que toda a graça que nos inunda é imerecida prova da abundante generosidade do Senhor.

Confesso que a “coceira de proclamar” não se alivia com os talcos ou bálsamos dos dias atuais. Como uma autora facefriend constatou, o vírus da procrastinação está sempre presente (e nada latente) em corações despertos pela Palavra – e igualmente embalados pelas dissonantes e entorpecentes cantigas de ninar do mundo em que vivemos e escrevemos. Já passou quase uma semana do ano de nosso Senhor de dois mil e dezessete. Tenho muito que escrever e nem sei por onde começar, se bem que continuo com metas a cumprir. Por exemplo, publicar dois livros novos e, como uma mulher mais velha de Tito 2.3, que, sem perder a joie de vivre ou humor, eu seja séria em meu proceder; não caluniadora (nem em insinuação, face, nem em pessoa); não escravizada (a vinho ou a qualquer coisa que anticristãmente intoxique a mente ou escravize o coração); que seja mestra do bem (de coração aprendiz e disposição serviçal); a fim de instruir as jovens a amarem ao marido e a seus filhos, a serem sensatas, honestas, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido e ao Senhor da Noiva da qual participo. Ser ainda respeitável e não maldizente, temperante e fiel em tudo (1Tm 2.11)! Se conseguir comunicar isso com graça durante os próximos doze meses, considerarei cumprido meu chamado.

Observo postagens lupinas de velhos pastores que se revestiram de idolatria herege, zombando de jovens que mantém a sã doutrina e, como João o ancião disse: “Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” (1Jo 2.14). Tenho “coceira” de responder ou comentar à altura da dissonante voz. Mas volto ao Verbo da Vida e ao discípulo amado que passou a ser apóstolo do amor para ler postagens escritas com estiletes de palavras duras de entalhar após queimadura de mãos e corpo no óleo, além de lábios ungidos em meio à solidão do exílio de Patmos:
O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos,
o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa. Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós (1 Jo 1.1-10).

 Que o novo ano seja regado com as palavras das três epístolas de João a pais que conhecem o Pai, jovens, velhos, crianças, filhinhos, senhora eleita, senhores e servos, e amigos!
É SÓ O COMEÇO!

Elizabeth Gomes